Pular para o conteúdo principal

CRÔNICAS DO IRÃ (2023) Dir. Ali Asgari, Alireza Khatami


Texto de Marco Fialho

Numa época em que os filmes de ação e violência estão muito em voga, Crônicas do Irã, dirigido pelos jovens Ali Asgari (Até Amanhã) e Alireza Khatami, mostra o quanto um filme pode ser violento sem derramar uma gota de sangue ou mesmo abrir mão de uma câmera nervosa e cortes abruptos. Apesar da direção concisa, sem nenhum floreio técnico, a obra soa cortante por ser cirúrgica ao tocar numa ferida aberta inerente ao sistema político do Irã, em especial à censura.

Na primeira e longa cena inicial, vemos um plano geral da grande cidade de Teerã indo lentamente acordando, da noite vamos avistando a luz do dia e os sons característicos da urbanidade, os carros e as ambulâncias avisando sobre o que é viver naquele turbulento território. Mas se a cidade ao longe parece como qualquer outra, de perto não é bem assim. A partir de então vamos conhecendo histórias que poderiam ser de terror, como a primeira em que um homem não consegue registrar o nome do seu filho como David, julgado inapropriado pelo burocrata do cartório, como uma apologia ao estrangeirismo. 

Crônicas do Irã acerta no formato, o de não mostrar o rosto do agente do Estado, apenas o tom monocórdico e sereno de quem tem o poder de decidir sobre a vida do outro. Extrair o rosto do opressor é uma maneira que Ali Asgari e Alireza Khatami encontraram de suprimi-los, se não da vida, pelo menos da arte. A câmera se fixa sempre nos oprimidos, em quem busca, na maioria das vezes, lutar contra a burrice cega e absurda de um governo xiita que não permite a menor expressão do indivíduo. 

O filme constrói cenas curtas que trazem à luz as dificuldades que a população iraniana enfrenta no dia a dia devido a sinistra e destrutiva relação entre religião e política. São episódios que em outros países nada resultariam, mas que no Irã vira uma novela patética e que flerta com o universo de Franz Kafka. Uma menina quer participar de um festejo escolar com uma roupa a sua escolha, mas não só é impedida como lhe é imposta a roupa oficial, no qual mal se vê o rosto. Talvez seja esse episódio o que melhor trabalhe com a noção de extracampo dos diretores, que contrasta violentamente o que é visto em quadro (o oprimido, no caso, a menina) e o que não está em quadro (os agentes da dominação) e decide sobre a vida das pessoas. 

Crônicas do Irã retrata o constrangimento que é viver no Irã contemporâneo, mostra o quanto um país urbano pode ainda conviver com um atraso cultural absurdo e limitador da felicidade humana, cruel aos direitos da mulher e apequenado diante de uma religião retrógrada e opressora. Alguns episódios registram o quanto a tecnologia é utilizada para a preservação de costumes bizarros. De repente ouvimos: "a câmera pegou a senhora fazendo tal coisa...". É a modernidade abraçada com o atraso, o pior dos mundos. Quando os diretores apontam a câmera novamente para a cidade, em um plano geral, vemos tudo ruir. Depois de tanto desabamento moral, eis que os prédios também se desmoronam em um grande terremoto, uma imagem brutal e simbólica acerca de um Irã que nas aparências é imponente e desenvolvido, mas por dentro é decadente e podre.                            

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...