Pular para o conteúdo principal

ÀS VEZES QUERO SUMIR (2023) Dir. Rachel Lambert


Texto de Marco Fialho

Às Vezes Quero Sumir é um drama intimista, pequeno, sem pretensões maiores, embora narrado com grande feeling e sensibilidade pela diretora Raquel Lambert. E como é bonito sentir a mão feminina em todas as cenas, como se houvesse sempre uma mão carinhosa a afagar cada plano filmado, em especial os da protagonista. Essa é uma típica obra de personagem, no caso, a de Fran, que conta com uma interpretação cativante de Daisy Ridley, uma jovem a procura de si mesma, e em busca de seu lugar nesse mundo.

A maior parte da história de Às Vezes Quero Sumir se passa no pequeno escritório em que Fran trabalha como auxiliar, fazendo planilhas e cuidando da liberação de itens de escritório, uma vida simples que mantem o sustento financeiro, mesmo que algo no seu semblante deixe transparecer um quê de infelicidade. 

A delicadeza com que Raquel Lambert vai deslanchando pacientemente a vida de Fran é instigante, pois a cada novo instante pouco sabemos sobre como ela é, do que gosta, apesar que chega um momento em que ficamos na dúvida se Fran realmente sabia quem ela mesma era. A câmera de Rachel Lambert vai flagrando os pequenos detalhes da vida cotidiana de um escritório, com suas baias demarcadoras dos espaços, seus computadores, as conversas cruzadas sobre banalidades, o café e os tira-gostos tão comuns nas repartições burocráticas. 

A grande virada da história acontece logo depois da aposentadoria de uma colega de trabalho e a chegada de Robert, seu substituto. Ele e Fran até engatam um flerte, mas o autoboicote dela logo atravanca a relação. A diretora se escora no lúdico para melhor traduzir ou deixar pistas de como entender melhor a cabeça confusa de Fran, com os delírios de morte ou de que está suspensa pelo guindaste que funciona no estaleiro bem em frente do escritório em que trabalha. 

Os delírios de Fran e os diálogos dela com Robert são responsáveis pelos melhores momentos de Às Vezes Quero Sumir, que se utiliza muito dos silêncios e dos olhares para mostrar ao que veio. Mesmo que a premissa de Raquel Lambert não contenha grandes lampejos e nem se pretenda a isso, saber lidar com o mínimo e dar conta dele é um grande mérito. Os 90 minutos de Às Vezes Quero Sumir passam tranquilamente por nós, sem nos sobressaltar ou mesmo cansar, como uma peça de câmara ambientada em uma pequena cidade, que apenas tenta viver na sua aparente e frugal calmaria.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...