Pular para o conteúdo principal

ANTONIO CANDIDO, ANOTAÇÕES FINAIS (2023) Dir. Eduardo Escorel


A sonata cândida de Escorel 

Texto de Marco Fialho

Antonio Candido, anotações finais, de Eduardo Escorel, se desenvolve para os espectadores, ou melhor, ouvintes, como uma sonata. O diretor parte de seus cadernos, escritos desde à infância, centrando nos pensamentos registrados nos três últimos cadernos, de 2015 a 2017. O caráter diminuto da proposta formal não o desmerece como documentário, muito pelo contrário, o expande por concentração, de um mínimo que se torna gigante na tela, tal como as sonatas de Beethoven, que aliás, inundam nossos sentidos durante a projeção e imantam a nossa atenção.        

Escorel consegue, como poucos, dar uma aula de reconstituição histórica e memorialística. Em mãos, tem-se pouco, os cadernos de anotações de Candido e algumas imagens de arquivo desse grande intelectual. A grandeza do pensamento de Antonio Candido explode a cada nova revelação que este nos faz, tendo a voz precisa e aveludada do ator Matheus Nachtergaele a pontuar toda a narrativa. Quem aqui nos conduz é a voz de Candido/Nachtergaele, este último lendo suas anotações finais, lembrando que Candido era um nonagenário beirando o centenário. 

A poesia de Antonio Candido, anotações finais está em cada frame, em cada construção que o mestre Escorel realiza pela montagem, que não deixa arestas ao costurar ano a ano reflexões profundas sobre a vida, feitas por uma inteligência privilegiada como foi a de Antonio Candido. O filme de Escorel cria, tal como uma sonata, uma expectativa sobre o devir das palavras de Candido. Há uma angústia que o próprio pensamento de Candido provoca, em especial como o pensador trata da proximidade da morte. Escorel captura o tempo, o espreme para retirar dele os últimos suspiros poéticos de Candido. Esse escalonamento do tempo, em uma crescente obsessão pelo inevitável se exprime no filme, como se a vida de Candido fosse a nossa própria. Afinal, o tempo que se esvai para ele também está implacavelmente também passando por nós. 

Como é instigante ver a maneira como Candido pensava o mundo. Escorel sabe pinçar o quanto argutas são as articulações que o escritor fazia ao refletir sobre as artes e o seu tempo. Interessante notar como o pensamento político estava presente constantemente em suas ideias. Pensar a literatura e o mundo juntos, essa foi uma contribuição indelével desse escritor fenomenal. Chegamos a sentir a mesma angústia de Candido ao constatar que o mundo político brasileiro e mundial se degringola aos seus olhos já velhos e cansados. A fragilidade de suas pernas parecem acompanhar os percalços do Brasil, que viu a extrema ignorância e burrice crescerem em uma escalada vertiginosa. Um ardil que contrasta violentamente com a lucidez desse personagem marcado pela extrema inteligência.

Outra chama poética que o filme acende e sublinha é a da relação de Candido com a esposa Gilda. Os testemunhos melancólicos dele se achegam quando a câmera capta a imagem dela, que flutua na tela até dar um nó a mais na garganta. Pensar a vida do país, mas igualmente a sua, nessa interseção entre o indivíduo e o coletivo, um sempre em comunhão com o outro, em um belo exercício de lucidez, o que faltou muito ao Brasil dos últimos anos pelas invasões das fake news da extrema direita. Mas há algo de nobre no viver de Candido. Ser o último de sua geração a morrer, testemunhar ao desmoronamento da vida dos seus e ter a certeza que isso está assinalando também o seu fim. 

Antonio Candido, anotações finais é uma joia que só o cinema pode nos oferecer. O enredar de emoções nas revelações de um diário íntimo que agora nos chega e arrebata. As confissões poéticas de quem viveu se dedicando à literatura, uma ode à poesia e a beleza de existir. É de arrepiar ver a câmera passear pelos cômodos de Candido, de ver a biblioteca que tanto alimentou textos cruciais para quem escreveu tanto sobre livros. Como não se encantar ao ouvir Candido refletir sobre o seu ofício e dizer que buscou reduzir a vida em palavras, para quem sabe dar a elas uma sobrevida. Antonio Candido, anotações finais realmente me soou como uma sonata deliciosa de se ouvir. Obrigado Escorel por tanto, meus ouvidos e olhos agradecem consternados, mas com a alma feliz e plena.                  

Comentários

  1. Que maravilha. Obrigada ouvidos e olhos atentos à tanta sensibilidade. Ouve-se a sonata que as palavras trazem. Assistir ao filme torna-se um deleite anunciado.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado Marisa! Adorei igualmente suas palavras!! ❤️

      Excluir
    2. Sou de comentar o que aprecio, especialmente. Vc escreveu Muito Bem. Todos agradecemos, viu? 😉😘

      Excluir
    3. Obrigado querida por palavras tão generosas e afáveis. ❤️

      Excluir

Postar um comentário

Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...