Pular para o conteúdo principal

ERVAS SECAS (2023) Dir. Nuri Bilge Ceylan


Texto de Marco Fialho

Se há algo inconteste perante a qualquer filme dirigido por Nuri Bilge Ceylan é a sua assinatura. Os filmes dele possuem traços bem identificáveis. A sua maneira de narrar é inconfundível. Talvez esse importante e célebre cineasta turco possa ser equiparado artisticamente às narrativas romanescas do russo Fiodor Dostoiévski, em especial pela abordagem preciosista que ambos traçam em torno dos seus personagens, de como enredam psicologia e forte interação com o meio, mais específicamente, como os ambientes influenciam o indivíduo. Outra característica bem latente é a problemática interpessoal, provocadora de crises e embates constantes entre os personagens, além de ser disseminadora de angústias pessoais.

O trabalho mais recente de Ceylan, "Ervas Secas", bem comprova isso. O personagem Samet (Deniz Celiloglu), muito lembra um personagem tipicamente dostoievskiano. A sua procura por si mesmo em meio a um mundo caótico, que pouco o compreende, e que ele igualmente se sente deslocado, é uma de suas características mais marcantes. Há uma falta de caminho para Samet, que prevê o quanto a mediocridade parece determinar os rumos da vida de um professor em um ambiente tomado pelo provincianismo. É interessante observar a trajetória tortuosa de Samet, inclusive o quanto vai perdendo a retidão moral.

Nuri Bilge Ceylan, em seus filmes, fala muito sobre a atmosfera provinciana da Turquia, da falta de perspectivas das pessoas que almejam mais intelectualmente e não são correspondidas pelo mundo ao seu redor. O cineasta enfoca mais o universo masculino em seus filmes e em "Ervas Secas" não é diferente, com Samet conduzindo a história, embora a ótima personagem de Nuray (Merve Dizdar) ocupe relevância na trama, como uma mulher independente, com forte personalidade e ideias sobre o mundo, que até se chocam com os pensamentos de Samet. Nuray é uma militante, que morou em Ancara, Capital turca, e participou ativamente da vida política do país. 

Outro personagem crucial na história é Kenan, um outro professor, que divide o alojamento com Samet. Quando Samet apresenta Nuray para ele inicia-se um jogo de sedução de ambos para conquista-la. Nuray é uma personagem fundamental para revelar o caráter dúbio de ambos os personagens masculinos. Ela irá suscitar ações inesperadas dos dois pretendentes, que passarão a flerta-la pelas costas um do outro. "Ervas Secas" é um dos filmes mais intrigantes de Ceylan, em especial, por ele buscar desenvolver em todos os personagens, sentimentos e ações ambíguas. Cena a cena vamos ficando surpresos com as atitudes surpreendentes, principalmente dos três personagens que formarão uma espécie de triângulo amoroso. Em "Ervas Secas", Ceylan abandona um pouco a abordagem social e prioriza um enfoque mais psicológico dos personagens e o resultado não é mau. Não que o social não esteja presente, mas o que eu quero dizer é que ele não dita as ações de maneira mais determinante, ele se encontra mais diluído nos comportamentos dos personagens.

Outro elemento fundamental na mise-en-scène de Ceylan é o trato que ele faz do espaço, e sendo mais específico ainda, da paisagem e interiores dos ambientes internos. O próprio clima frio e branco, é contrastado com ambientes escuros, muitas vezes até difícil de precisar tudo que está em cena. As várias cenas na neve espessa parece querer mostrar que há muita coisa encoberta sob o tapete alvo de uma imagem falsamente límpida. O apartamento dos professores, a sala dos professores, a sala particular de Samet e a loja em que ele visita um amigo para conversar e beber (um espaço muito estranho de uma maneira geral), todas, sem exceção, causam no mínimo estranhamentos pelo tom ditado sempre pelo soturno. 

Ainda falando um pouco mais sobre esses espaços, é interessante observar também como eles são filmados. Primeiro reparar nas nuances fotográficas, de uma luz sempre difusa, amarela no centro e amarronzada, ou ocre, fora do centro da imagem (sempre bom lembrar o aspecto fúnebre e terroso que essas imagens sugerem). Com isso, os objetos espalhados nas cenas (sim, sempre tem muitos) criam um ambiente confuso, desarrumado e insinuadamente decadente. Os espaços entulhados e mal iluminados dispersam a imagem, a deixa mais turva e imprecisa. É como não soubéssemos exatamente o que está sendo dito. É a construção da ambiguidade como pedra fundamental, como um conceito imagético. Não se pode iludir que Ceylan seja um construtor narrativo que despeja tudo nos diálogos, mesmo quando estes últimos são potentes e importantes para o filme.

Mas não é só isso. Ainda tem os enquadramentos, a maioria filmados em planos gerais muito bem planejados, que incorporam o ambiente caótico e nos distanciam dos personagens. Com isso, Ceylan não permite nossa aproximação à cena, filma às vezes numa inspiração teatral, mas longe de ser um teatro filmado. Nas cenas mais longas, Ceylan evita os cortes dentro da cena e privilegia o plano sequência, para que os atores fiquem à vontade com os imensos textos decorados e ensaiados com precisão. 

Entretanto, a maior surpresa de "Ervas Secas" é como Ceylan muda o rumo do filme. Se em seus filmes anteriores, o cineasta se preocupava mais em incluir o contexto em sua trama, o mesmo não ocorre aqui. Embora nos planos iniciais Ceylan ameace ou tente nos induzir que vai dissertar sobre o território provinciano, há uma mudança drástica de direção ao se utilizar mais da ideia do provincianismo como forma de se forjar os caráteres dos personagens do que como crítica social. Em "Ervas Secas", Ceylan mergulha mais nos personagens, nas suas contradições e pequenez. A mesquinharia, o ato banal e até o lado pueril e descartável do sexo estão fortemente presentes: Samet esconde carta de aluna; faz sexo para mangar do colega; e negligencia propositalmente o processo educativo dos alunos. A baixeza do regime político turco faz crer que está encruado nas ações individualistas do protagonista, como uma reafirmação da vitória do sistema sobre o homem. Por isso, é soberba a longa cena em que Nuray esmiúça as fraquezas políticas de Samet em um discurso elaboradíssimo e desconcertante. Ceylan, se utiliza da verve de Nuray para desconstruir Samet. Não que Ceylan não ataque as instituições, em especial a escolar, mas o faz sem grandes detalhamentos, mais como citação do que objeto de estudo e aprofundamento.

Durante a projeção vamos descobrindo diversas camadas no filme. Tema e subtemas vão se desenhando e alinhando ao enredo. De repente, Ceylan dá uma guinada e começa a trabalhar com a ideia de vaidade como sentimento vil, assim como a mentira como motor da destruição das relações. Samet despreza ostensivamente Nuray, mas quando nota o interesse de Kenan, passa a querer flertar também com ela. Tem uma cena que me parece determinante para a virada da história, que é quando Nuray, aparentemente encantada, pede para tirar uma foto de Kenan. O incômodo de Samet é notório e a partir de então sua postura muda completamente tanto com o colega quanto com ela. "Ervas Secas" é mais um trabalho fenomenal de Nuri Bilge Ceylan, só que agora como um cineasta crítico do sujeito e de como o poder suborna a integralidade do caráter dos indivíduos. Aos poucos, vamos vendo Samet cada vez mais como uma figura sombria e nebulosa. Mais Dostoiévski do que isso, impossível.        

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...