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VIAGENS (2024) Dir. Patrícia Niedermeier e Cavi Borges


Texto de Marco Fialho

a viagem vai começar... é só esperar na gare...

Quem acompanha as viagens artísticas dessa dupla Patrícia Niedermeier e Cavi Borges sabe exatamente como a vida deles é um mix de cinema e viagens. "Viagens" reúne 13 videoartes que eles realizaram como parte de um processo de criação de seus projetos maiores. Uma delícia de assistir a tantas performances capitaneadas pelo talento cênico de Patrícia Niedermeier. Curioso perceber como cada uma das 13 videoartes guarda um encanto próprio. São viagens imaginárias, voos rumo à percepção da pele. Algo de diferente acontece na epiderme. O prazer é viajar sem destino.     

a viagem começa. O trem está partindo da Estação Paty/Cavi... um apito estridente ecoa no cinema...

Logo de cara somos surpreendidos sensorialmente. Fazemos uma viagem pelos sons, com eles nos transportamos para lugares, espaços que a princípio só existem marcados em mapas e papéis. A materialidade é dada pelo som do trem, do carro, do mar que foi preciso atravessar para que a(s) viagem(ns) fosse(m) além do que é visto. Os sentidos são expandidos, som e imagem nos levam para um estado de liberdade. É incrível como da cadeira confortável do cinema, de repente, estou em outros espaços pelo mundo, enquanto Patrícia se deleita relaxadamente pelo mapa, como se estivesse flutuando em areias fofas de uma praia. Os corpos são ilimitados, buscam e buscam sem cessar, rondam as perguntas e também perguntam. 

próxima parada: os artistas são invasivos... e a viagem continua...

Mas as viagens audiovisuais de Paty e Cavi são sobretudo calcadas em seus processos, daí eclodirem Yves Klein, Maya Deren, Van Gogh e E. Muybridge. São filmes viagens sobre viagens de ambos. A arte deles parte da experiência, embora se expanda pelos estudos sobre os processos artísticos, não são só uma coisa, são um mix de vivências, pensamentos e vida. Artistas sonoros também são incorporados, como Laurie Anderson e Phillips Glass, como bem lembrou o documentarista Bebeto Abrantes na sessão de lançamento de "Viagens". Os sons conduzem a nossa experiência sensorial a todo instante, perpetram uma viagem espiritual, saímos leves da sessão, embora com novas perguntas, afinal, os artistas são invasivos... 

próxima parada: os girassóis de Van Gogh são eternos... e a viagem continua... 

São muitas imagens belas, imagens ressignificadoras do viver, como cavalos de um tabuleiro de xadrez que se materializam em cavalos reais. Girassóis que são descortinados por uma câmera que gira vertiginosamente por eles, que inebria, nos arremessa em um paradisíaco campo de girassóis. Sem mais, quero ficar ali, estático, como se pudesse adentrar, estar plenamente ali, em outro país, outra paisagem, outro sonho, o deles. Egoísta é a última coisa que um artista é. Ele quer sempre partilhar, dividir o indivisível de uma experiência, de um olhar. Captar o eriçar que os sentidos baldearam pelas coisas que foram, uma espécie de memória possível do que foi. Os girassóis de Van Gogh são eternos.  

próxima parada: os polípticos embaralham a visão... e a viagem continua...  

E o que dizer dos polípticos, dos retábulos imagéticos que Patrícia invade. De repente, queremos fazer o mesmo, penetrar imagens que proliferam na tela, sermos invasores, ETs na Terra do fantasmagórico cinema. Como fazer para estar com aquelas imagens que expressam diversas vidas, são vidas multiplicadas, que queremos perscrutar uma a uma, mesmo que saibamos que nossos olhos não conseguiram ver todas, sentir todas como deveria ser. As bicicletas no políptico caminham para um não-lugar, o lugar de cada um. Imagens são muitas e podem ser imagem-texto, palavras e poesia. Um políptico são palavras a serem desveladas pelo pause.      

próxima parada: o gêiser e a performer... a viagem continua... 

O homem é um inventor. Se existem gêiseres naturais, porque não (eis algo que perambula pelas artes, os porquês) criar um artificial, em uma praça pública. E por que não performar com eles, propor um jogo sensorial, com uma água que eclode inesperadamente e nos convida para um flerte? Como não lembrar dos nossos abundantes mares, dos nossos rios e das forças espirituais que eles evocam? Cada movimento reorienta as águas. O som mais uma vez nos domina... e gritos ecoam bem na minha testa. E Maya vai, aos poucos, aparecendo nos desvãos. 

próxima estação: Alice e as palavras... e a viagem continua...

E quando o corpo se transforma em poema, é transbordado por ele, como um gêiser a jorrar o belo? Alice, disse, visse, ali se: as palavras vão se fazendo, se montando em combinações, em poesia que não é só das palavras, mas também das imagens, das sombras de um corpo fugidio que teima em interferir nas palavras. Palavras que se buscam, uma procura do ofício poético, de letras que voam no céu do corpo. A corporal idade das palavras. Alice, quem sabe, pode ser vídeo, pode ser o que quiser, a arte permite tudo, tudo que é bonito se desmancha no ar, tudo que é lindo se dissolve na nossa mente, como uma bebida amarga que depois deixa aquela dor de cabeça. A poesia bebida deixa uma nuvem branca na cabeça, um levitar sem fim. 

próxima parada: a poesia do azul... viagem continua...

A cor no cinema. A Terra é azul. O planeta Yves Klein é azul. Pat é azul, mas não  qualquer azul, o azul de Klein é a meta. Ela se imiscui ao azul. Ela torna-se o azul. O som é  azul. A gravidade é azul. O filme é azul. O cinema é azul. O astronauta só vê o azul. A poesia do cinema pode ser azul.

próxima parada: os números brincam no infinito de Muybridge... e a viagem continua...

Os números dizem algo sobre a vida. Os homens quantificaram a vida. O nascimento é número. A morte será número. A escuridão não é o fim. Os números ressoam infinitamente. O infinito é um número impossível de contar. A escuridão do infinito numérico não tem cor. O som é um número sem fim. Pat, um rosto com números. Os números e o rosto formam um dueto poético. O duo, o uno. Como um cavalo qualquer se transforma em um cavalo de Muybridge? 

O trem chega à gare?

Depois de várias estações, o trem chega ao destino arte. Depois de tantas imagens e sons, de polípticos, de paisagens e corpos no espaço, a artista se agarra ferozmente a uma corda no mar. Essa imagem me remete ao esforço do artista para se manter ali, no eterno risco, mas sem largar a corda. Segurar na corda e lançar perguntas ao imenso mar impenetrável. Por que não? A arte está sempre a indagar com o seu quase nada. Qual será a data da minha morte? Quem vai ser a última pessoa a lembrar de mim? Perguntas são viagens. Imagens também. Será a morte a última viagem? Quem haverá de lembrar disso? O trem fantasmagoricamente ainda viaja a esmo por uma estação...     

Comentários

  1. Que texto lindo!!!! Emocionante, poetico, sensível, inteligente, brilhante. Levando nossas
    " viagens " a novos lugares, sentimentos, sensações....um texto mapa expandindo os territórios dos nossos filmes. Nossa geografia pessoal ganha novos vôos. É um dos maiores presentes que um artista pode ganhar na vida! A arte vale esses momentos! OBRIGADA Marco Fialho! Um grande abraço. OBRIGADA por tanta beleza e poesia. OBRIGADA por seu belo olhar. Beijos. Patricia Niedermeier

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