Pular para o conteúdo principal

HOW TO HAVE SEX (2023) Dir. Molly Manning Walker


Texto de Marco Fialho

Em um primeiro momento "How to have sex" me incomodou pela movimentação excessiva da câmera e o ritmo adolescente que a diretora Molly Manning Walker propõe como narrativa. Uma câmera frenética no início acompanha as três amigas que estão dispostas a tudo para curtir umas férias para lá de ousada. Mas confesso que depois de um tempo fui até me deixando levar pelo seu entusiasmo vazio de ver os rompantes juvenis a flor da pele, mas confesso que a proposta da direção me convenceu mais quando o filme começou a ir para um outro caminho ao centrar mais a trama em Tara (Mia McKenna-Bruce), a jovem deslumbrada que tem apenas como meta perder a virgindade o mais rápido possível. 

O que era um filme típico de adolescente, se transforma cena a cena em uma reflexão sobre o abuso e o estupro sofrido por Tara nas suas aventuras pelo mundo da diversão e do sexo. Essa decisão de Molly M. Walker faz as outras duas colegas de viagem tornarem-se imediatamente coadjuvantes na história e permite que o protagonismo de Tara cresça na tela. As opções de enquadramento ajudam a diretora a livrar seu filme da banalidade ao assumir o enfoque narrativo em Tara. A câmera se aproxima dela, e como espectadores, nos tornamos cúmplices dos seus sentimentos e do seu drama, pois o que a câmera faz é agir como se quisesse sufoca-la contra a parede, a asfixiando. 

Dessa maneira, "How to have sex" conseguiu abocanhar o prêmio máximo da mostra "Um certo olhar" no Festival de  Cannes, dedicado a jovens realizadores. O clima vertiginoso do início coloca o espectador no mesmo clima e expectativa das três amigas e ele é fundamental para a nossa imersão nas festas que as protagonistas estão vivenciando e para nos aproximar em especial das experiências de Tara nesse contexto de farras, bebidas e paqueras. 

Entretanto, a diretora logo após desloca essa sensação de euforia para uma outra energia, para uma vibe mais sinistra. É um efeito parecido com o uso de drogas que leva as pessoas do paraíso ao inferno em poucos instantes e tudo acontece muito rápido. O fato de Tara e amigas beberem até cair e vomitar já é o primeiro indício de que aquela aventura com os rapazes do quarto do lado logo iria naufragar. 

Mas "How to have sex" ainda joga habilmente com os impulsos juvenis. Tara acaba sendo seduzida por Paddy (Samuel Bottomley), apesar de desenvolver uma relação mais madura com o sedutor Badger (Shaun Thomas). Se, de repente, Tara sai de uma ausência de relações com o sexo oposto para ter duas possibilidades durante a viagem, isso expressa um pouco as próprias curvas sinuosas da vida e que o próprio filme oferece. Enquanto a relação com Paddy é mais imediatista e carnal, com Badger exige mais tempo, mais diálogo e construção. É muita emoção para administrar em uma mesma férias de verão.

O filme é muito sobre esse duro aprendizado de Tara perante as situações práticas do coração e da carne aflita por novas experiências. As cenas de sexo, inclusive, são todas decepcionantes para Tara, que talvez esperasse algo melhor do que a dor que ela claramente expressa em seu rosto. Outra surpresa que ela não esperava é a de ser violentada em um sexo não consentido e não saber o que fazer nem na hora nem no momento a seguir. É visível o quanto ela fica atordoada e sem prumo para agir de imediato. As férias eram para ser surpreendente, repleta de emoções, embora claramente não contemplasse um abuso seguido de violência sexual. 

Ao focar em Tara, a diretora Molly M. Walker consegue transformar alegria em dor em poucos minutos, mostrando o quanto a violência ainda permeia as relações no mundo de hoje, inclusive entre os jovens. Com certeza, esse é um fato que as gerações antecessoras não podem igualmente se gabar de ter vencido (muito pelo contrário). "How to have sex" chama atenção para esse tema e o atualiza para que continuemos atentos às gerações vindouras, já que a atual mostra o quanto as mulheres continuam ainda expostas as situações de violência masculina.


                         

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...