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EMILY (2022) Dir. Frances O'Connor


Texto de Marco Fialho

"Emily" é uma obra belíssima, dirigida com muita sensibilidade e apuro técnico por Frances O'Connor, com destaque para uma fotografia primorosa, que valoriza a preciosa direção de arte do filme. É de saltar aos olhos ainda a parte sonora, muito criativa e bem pensada em cada cena, em especial nas finais e decisivas do filme. 

E que interpretação de Emma Mackey como Emily Brontë, uma das grandes que vi nos últimos tempos. A diretora Frances O'Connor acerta muito em centrar a história em Emily e mais ainda nos momentos onde ela precisa decidir se seria ou não uma escritora. Apesar de que, no caso de Emily, ela é  vista aqui como uma escritora obscura à sua época, já que não chega a se firmar profissionalmente, em especial porque sua vida é interrompida por uma morte muito prematura. 

Muito lindo como Frances vai construindo a poética da chuva a cada momento no filme, e como são abundantes essas situações, apesar da diretora começar a sublinha-la somente a partir do discurso do novo pároco, para depois ir costurando e pontuando com delicadeza a cada cena esse simbolismo, que se passar desapercebido, fica até difícil de pensar o próprio filme. Evidente que diversas leituras podem ser feitas a partir dele, porém deve-se salientar o papel do poder incontrolável e irrefreável da natureza nas ações humanas, uma metáfora que a própria Brontë vai levar para o seu hoje clássico inquestionável "O morro dos ventos uivantes", a da força da natureza perante à fragilidade humana. 

Frances O'Connor abusa não só dessa natureza incontrolável, mas como também da natureza humana e o quanto ela pode ser traiçoeira e irrefreável. É muito bem explorada em "Emily" as relações humanas que a tímida protagonista precisa transitar e enfrentar durante a sua curta vida: a relação conflituosa com o pai, a paixão do único irmão, a relação afetuosa com as irmãs e a paixão desenfreada com o pároco (Oliver Jackson-Cohen). Infelizmente um filme que passou batido pelos cinemas, mas que merecia um tempo maior para ser descoberto pelo público. 

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