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ROBERTO FARIAS, MEMÓRIAS DE UM CINEASTA (2023) Dir. Marise Farias


Texto de Marco Fialho

O documentário "Roberto Farias, memórias de um cineasta" além de ser um expressivo compêndio do cinema brasileiro da segunda metade do século XX, se consubstancia como um precioso registro afetivo de uma filha para o seu pai. A diretora Marise Farias assume uma das narrações do filme, enquanto o irmão Reginaldo Farias, se encarrega, de dizer em off, partes do diário de Roberto Farias. Tudo fica em família, aliás uma família para lá de cinematográfica.

De fato são muitas memórias ligadas a Roberto Farias: de filmes que dirigiu, produziu, do cargo que exerceu como único cineasta presidente da EMBRAFILME nos anos 1980. E talvez essa seja realmente a maior riqueza de "Roberto Farias, memórias de um cineasta", a de resgatar a ampla importância desse personagem, muito para além de seu papel como diretor, mas igualmente como político na época mais difícil da política brasileira do século XX, o período da ditadura militar pós a decretação do AI-5 (Ato Institucional nº 5, que extinguiu as liberdades individuais no Brasil), no fim do ano de 1968.

O documentário mistura imagens da vida pessoal com a profissional, e mostra a paixão de Roberto pelo cinema desde à infância. Tudo soa muito confessional e uterino, com a própria Marise narrando as histórias, mesmo que um som de piano ao fundo torne alguns instantes do filme cansativos e melosos demais. Como era de esperar, ao revisitar a história do pai Roberto Farias, Marise esbarrou sistematicamente na própria história do cinema brasileiro e esse é o aspecto mais importante desse documentário tão pessoal e amoroso. 

Sem jamais se filiar a um movimento específico, Roberto passou pela chanchada, para logo assumir uma postura independente quanto ao estilo narrativo de seus filmes. Assim, realizou obras fora da curva como "O Assalto do Trem Pagador" (1962), um excelente thriller policial de ação (numa época em que o Cinema Novo já apontava outros caminhos) e uma série de três filmes de aventura com Roberto Carlos, a maior revelação musical do cancioneiro brasileiro da época. Marise traz bastidores impressionantes desses três filmes cheios de ação, inclusive "Roberto Carlos no Ritmo da Aventura" (1968), brigou ingresso a ingresso com um filme da série 007 da vez ("Com 007 só se vive duas vezes"). Roberto Farias jamais negou que seu maior interesse no cinema era realizar obras que dialogassem diretamente com o público, o que o distanciou da maioria do grupo cinemanovista da época, inclusive do ícone Glauber Rocha, que irá antagonizar com Roberto, tanto como cineasta quanto como administrador da EMBRAFILME.   

Entretanto, um dos seus filmes mais comentados e reconhecidos até hoje é "Pra Frente Brasil" (1982), que retratava a perseguição política da época, ao mesmo tempo que condenava a tortura que ocorria naquele conturbado momento político brasileiro. O título já confrontava diretamente com o regime militar ao parodiar uma música que exaltava as ideias desenvolvimentistas e patrióticas da equipe econômica do governo ("esse é um país que vai pra frente", dizia a música). O protagonista da história era interpretado pelo seu irmão, o famoso ator Reginaldo Farias. O documentário conta vários detalhes dos bastidores de "Pra frente Brasil", inclusive à perseguição e a censura que o filme enfrentou para ser exibido nos cinemas brasileiros.

A diretora Marise Farias dá um destaque no enredo à trajetória política de Roberto Farias na EMBRAFILME, mostrando o quanto sua presidência possibilitou o maior sucesso do cinema brasileiro nas bilheterias, por incentivar tanto a produção quanto a distribuição do produto audiovisual brasileiro em relação aos filmes norte-americanos. Ser presidente da EMBRAFILME durante o regime militar, criou um reconhecimento estrondoso da figura política de Roberto Farias, um homem que conseguiu, na medida do possível, dialogar tanto com o regime autoritário quanto com os cineastas. Essa flexibilidade de sua personalidade é assinalada por muitos artistas como Zelito Viana e Luiz Carlos Barreto (o Barretão). O filme ainda resgata como foi fundamental para o cinema brasileiro ter um cidadão como Roberto Farias em um cargo decisivo para o cinema e que acreditava na democracia como via política, em um momento tão antidemocrático do país. 

"Roberto Farias, memórias de um cineasta" assume uma enorme relevância para o cenário cinematográfico brasileiro ao sublinhar o quanto o resgate da memória é um instrumento político fundamental para repensarmos a atual e frágil política de cinema no Brasil, desde a produção até a distribuição, já que o cineasta Roberto Farias esteve presente em todas essas etapas de uma maneira significativa e decisiva. Esse documentário, junto com o "Nelson Pereira dos Santos - Vida de Cinema" (ambos exibidos concomitantemente nos cinemas), ambos, são responsáveis por resgatarem materiais riquíssimos para os estudiosos e pensadores do cinema do país. Trazem para nós uma história ainda pouco conhecida, porque realmente, a memória não é um forte traço da nossa cultura.                    


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