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O SEQUESTRO DO PAPA (2023) Dir. Marco Bellocchio


Texto de Marco Fialho

Marco Bellocchio é um dos diretores mais profícuos da sua geração. O que mais chama atenção em seus filmes são as temáticas fortes e impactantes ("Vincere", "Diabo no Corpo", "Bom dia , Noite", "O processo do Desejo" e "A Bela que Dorme"), além de destacar o impacto que um indivíduo pode exercer na sociedade. Em O Sequestro do Papa, mais uma vez o diretor investe numa história impactante, o do rapto de crianças judias pela Igreja Católica na Itália do Século XIX, às vésperas da Unificação italiana, para obrigar uma maior adesão à sua religião. 

Essa é uma história que parece até ficcional de tão absurda que é. Bellocchio realiza um filme visualmente impecável, com planos filmados com requinte técnico que aproveitam a profundidade de campo das cenas, o que impressionou público e crítica no Festival de Cannes. A inserção dos ambientes imponentes da igreja católica, também colabora na reconstituição histórica do filme e reforça a veracidade das cenas.

O filme gira em torno do rapto do menino Edgardo Mortara (Enea Sala em soberba interpretação), mas Bellocchio consegue ir além do fato e trabalha como o rapto afetou diretamente o comportamento do menino. O diretor realiza uma obra que mergulha nesse personagem e aborda como no passar dos anos a educação católica foi sendo sedimentada em Edgardo, mesmo que antes de dormir ele insistisse em rezar orações judaicas.

A bela fotografia de Francesco Di Giacomo, que esbarra suavemente no sépia, não deixa de salientar as sombras, afinal, essa é uma história soturna, que revela o lado obscuro do ser humano e das instituições católicas. Como Bellocchio gosta de primar, o contexto histórico possui uma força surpreendente em O Sequestro do Papa. Há um permanente confronto entre uma conservadora e opressora igreja católica com os movimentos sociais que querem unificar a Itália. A força do movimento social organizado vai ganhando expressão crescente e ameaçando o poder até então soberano da igreja.                  

Marco Bellocchio flerta ainda na narrativa de O Sequestro do Papa com a imaginação infantil, como na cena em que ele liberta uma imagem de Cristo da cruz, o humanizando ao lhe dar vida. São elementos assim, que mostram o quanto Edgardo vai assimilando a religião católica, se sensibilizando com a ideia de um homem que se sacrificou pela humanidade. 

Em paralelo, Bellocchio trabalha o julgamento em que a família de Edgardo tenta ter o filho de volta à casa. A realidade mostra o quanto a justiça estava afinada com a igreja católica. O diretor realiza uma obra consistente, com uma produção luxuosa que costura bem a aspecto histórico e dramatúrgico do enredo. O Sequestro do Papa pode até não figurar entre os filmes mais marcantes e desafiadores da longa carreira de Bellocchio, mas mesmo assim, consegue imprimir uma força irrefutável em cada imagem que captou com a sua poderosa câmera, um diretor maduro e ciente de onde pode chegar com um bom uso da narrativa cinematográfica.

Comentários

  1. Um texto que passa excelência (do filme, em suas múltiplas facetas, e pela imagens e cores que vai projetando)

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