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O LIVRO DA DISCÓRDIA (2023) Dir. Baya Kasmi



Texto de Marco Fialho

"O Livro da Discórdia" em português, ou "Youssef Salem faz sucesso" em francês, tem como central em sua narrativa discutir os tabus da cultura árabe do protagonista Youssef, um escritor de origem argelina que lança um romance baseado em uma história da própria família. Em seu filme de estreia, a diretora Baya Kasmi realiza uma comédia leve e divertida sobre um tema espinhoso. Apesar de alguns deslizes, em especial na parte final, o resultado é bem interessante. 

Uma trama ficcional vinda do livro de Youssef, entra como uma história dentro da história de "O livro da discórdia", mas que ao mesmo tempo se mistura com a própria história do escritor, um tipo de brincadeira que parece aquela máxima  popular "quem conta um conto aumenta um ponto". A narrativa literária desenvolvida por meio de uma voz em off, me remeteu de imediato às obras românticas de François Truffaut (em especial, "O homem que amava as mulheres", de 1977, e a saga de Antoine Doinel, uma série de cinco filmes que começa em 1959, com "Os incompreendidos", e vai até 1979, com "Amor em fuga), o que me vislumbrou uma explícita homenagem ao mestre e as suas comédias de costumes muito bem urdidas e criativas. 

A leveza da proposta, entretanto, não leva o filme para uma banalização. Temas contemporâneos como o da necessidade do sucesso e da fama, da midiatização da vida, estão no cerne da discussão sobre os tabus sexuais da cultura árabe-argelina. A educação de Youssef está no centro das atenções com discussões focadas em proibições, interditos, além da exposição de diversas contradições, como a do pai vestir-se de mulher, o que soa estranho, pois no mundo abordado, as aparências acabam por predominar sobre as ações reais. Mas "O Livro da discórdia" pensa o livro, e por conseguinte o filme, como um processo de recriação da realidade, como uma dado de reinvenção da vida e esse mecanismo funciona bem.

O que mais me interessa em "O livro das discórdia" é como a diretora constrói o próprio protagonista Youssef, como um ser humano em constante conflito emocional, que se esforça em viver sua vida pessoal e profissional sempre na corda bamba, entre os valores culturais herdados e uma perspectiva de maior liberdade pessoal, daí a sua preocupação de esconder o livro da família. Em um desses conflitos familiares, temos uma das cenas mais divertidas que é a da irmã discutindo com Youssef no carro sobre como ele mudou as suas características físicas no livro, inclusive o seu sexo. Mas a cena mais hilária, sem dúvida, é a da editora na festa de premiação do livro de Youssef comemorando, bebendo todas e dando aquele vexame.       

Quero encerrar minha análise, discorrendo um pouco sobre a parte final do filme, para mim, a mais irregular, pois a saída encontrada pelo roteiro, de Youssef abrir mão da autoria do próprio romance é troncha, pois esse fato na real acarretaria muito mais conflitos e projeção midiática do que qualquer outra (afinal esta seria a maior mentira a ser encarada) solução, já que a tarefa de enfrentar a família com a dolorosa verdade e todas as consequências possíveis, seria a decisão moral mais acertada. Mas a diretora Baya Kasmi consegue redimir a si e ao protagonista na cena final, ao pensar em algo poético, que resgata um humor fino, simbólico para a sua trama, ao mesmo tempo que reafirma o amor de Youssef pela escrita. Esse é  um filme que se propõe estar inebriado pela leveza, da primeira a última cena.              

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