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ALMAS GÊMEAS (2023) Dir. André Téchiné


Texto de Marco Fialho

Curioso notar como alguns filmes franceses recentes vêm incorporando temáticas que dialogam com vários tabus sociais. Em "Almas Gêmeas", filme dirigido pelo experiente cineasta André Téchiné, o incesto entre dois irmãos torna-se o tabu da vez. A irmã é interpretada pela ótima atriz Noémie Merlant (Retrato de uma jovem em chamas) e o irmão pelo ator Benjamin Voisin (Verão de 1985). 

Na narrativa de Téchiné, o jovem David tem um incidente durante a guerra no Mali e perde a memória. Jeanne, a irmã, o acolhe para cuidar de sua saúde debilitada, o que precipita a recuperação de David, apesar de sua memória continuar ainda precisando de uma atenção maior. Se no início do filme tudo indicava que haveria uma relação histórica a ser trabalhada no enredo, logo a seguir essa expectativa se desfaz, para que tudo gire tão somente na relação entre os dois irmãos. 

Mais uma vez, temos uma obra francesa autocentrada, novamente circunscrita a uma questão familiar ou de casal, aqui podemos até escolher. Téchiné aposta na qualidade dos protagonistas para avançar a narrativa de "Almas Gêmeas" e ambos correspondem plenamente. Merece um destaque também o ator André Marcon (O Oficial e o Espião), que interpreta Michel, o estranho e recluso proprietário que aluga a casa em que os irmãos moram. A personalidade marcante dele aviva o filme em alguns momentos, pelo seu gosto inusitado de vestir-se com roupas femininas e maquiagem. Ele anuncia aos irmãos que venderá a residência, um dos pretendentes é uma imobiliária que quer construir um condomínio luxuoso de casas no local, o que irrita Michel.

Essa parte mais crítica do filme não se amplia tanto como poderia, pois a discussão sobre o avanço capitalista pela especulação imobiliária renderia ótimas discussões e levaria a história para lugares mais interessantes. Infelizmente, Téchiné resolve voltar o enredo para o drama dos irmãos. David realmente sofria de amnésia como dizia ou queria recomeçar a vida sob novos ares? Essa dúvida levamos para casa, não nos é dada acessar. Podemos ignorar o passado e recomeçar todos os dias do zero ou muito próximo disso? Essa é mais uma pergunta que o filme nos faz. 

O filme caminha sempre no fio tênue entre o passado, que David quer esquecer e o futuro incerto, onde tanto Jeanne quanto David precisam começar do zero. As pinturas rupestres das cavernas da região servem de aviso que o passado nem sempre é fácil de ser apagado. "Almas Gêmeas" às vezes se perde em explicações científicas sobre a memória, perdendo de vista que a maior contribuição que a obra poderia fornecer seria o impacto dessa memória na vidas dos personagens. Será que saber sobre o funcionamento do processo da memória realmente se revelou o melhor caminho a ser traçado pela direção? Ou o mais instigante seria interrogar como a memória impacta e transforma as vidas de cada um?          

O filme de Téchiné termina por trabalhar mais com a exterioridade dos personagens do que com a interioridade, o que dificulta bastante a nossa relação enquanto espectadores com os personagens, por trazer um distanciamento vazio à trama. Há um objetivismo no roteiro que não deixa espaço para que realmente se adentre nas maiores angústias dos personagens. Téchiné parece fissurado na fixação de David por Jeanne, mas esta é uma temática que vai se desgastando cena a cena e não consegue se sustentar, e nós como público vamos perdendo o interesse nos personagens. Essa é a maior sensação que fica ao final da projeção.

Comentários

  1. Pôxa, meu faro anda bom. Filmes têm servido como luxuoso entretenimento catártico para os próprios diretores desde quando?... Boas críticas ampliam a qualidade de um trailer sedutor e nos abrem espaço para o que de palpável possa existir.

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