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O TÚNEL DE POMBOS (2023) Dir. Errol Morris


Texto de Marco Fialho

"O Túnel dos Pombos" é um dos documentários mais sinistros que assisti nos últimos tempos e muito devido ao curioso estilo que o experiente documentarista Errol Morris imprime ao seu filme. Primeiro porque o personagem é em si mesmo muito suspeito, nebuloso, escorregadio e muito misterioso. Estamos a falar sobre o espião britânico David Cornwell ou o escritor John Le Carré? Talvez esse seja um documentário em que, ao final, fiquemos com mais dúvidas do que tínhamos no início do filme. 

A primeira impressão que temos é que não estamos assistindo a um documentário qualquer, a construção cinematográfica de Errol Morris impressiona em vários aspectos, desde a concepção imagética até a sonora. A sensação de realismo não existe nunca no filme, a começar pela fotografia lúgubre que toma conta da entrevista e depois por uma trilha musical que lembra os filmes de suspense ou espionagem. Logo na primeira cena, não sabemos se a conversa entre Morris e Cornwell é sobre o trabalho do documentarista ou sobre o de espião, mas de qualquer forma introduz bem o espectador na suspeição que traduz o documentário, na linha tênue que Morris tenta se equilibrar entre a ficcionalização do personagem e do próprio filme.

O ambiente da entrevista é sinistro, escurecido em demasia, talvez algo que revele um fato sobre a própria personalidade nebulosa do entrevistado. É bom lembrar que David Cornwell sempre partiu da experiência de sua vida totalmente fora da curva para escrever seus célebres romances de espionagem. Ele próprio foi um agente secreto, que conviveu com a KGB, o FBI, o Serviço Secreto Inglês e uma série de espiões em seu ofício. 

Morris está a falar de um ofício cuja essência primordial é a mentira e a traição. O diretor acompanha essa linha de depoimento também ao pensar o filme, que mais lembra um filme de espionagem do que um documentário. O filme tem inserções de docudrama, em que as reconstituições se tornam o arcabouço emocional de "O Túnel do Pombos". Morris se aproveita muito bem da carga cinematográfica de alguns depoimentos de Cornwell para explorar imagens super elaboradas e simbólicas, de túneis, pombos em câmera lenta e uma fotografia igualmente soturna para essas reconstituições do passado do personagem.

Sim, pode parecer que pelas minhas palavras o filme tenha algo de impressionante e essa é a verdade. Esse é um documentário incomum, por misturar o docudrama (tão comum em certos programas de reportagem sensacionalistas de TV) com uma entrevista captada com um requinte admirável, com Ângulos laterais inusitados sombreados e uma fotografia estilizada ao extremo. A entrevista de Morris começa logo perguntando sobre o processo e as técnicas de interrogatório da inteligência britânica. Não há como não relacioná-los ao próprio processo de entrevista do documentário, em uma espécie de me ensina como retirar dos entrevistados confissões surpreendentes e verdadeiras. É como cão caçando rato. Morris em queda de braço com Cornwell em busca de revelações sobre o seu mundo calcado em mentiras e traições.

E a fórmula de interrogatório de Cornwell é seguida a risco: o melhor é começar pela intimidade, pela família e a infância, quem sabe assim o entrevistado se curva ou se trai confessando algo que não gostaria. A estrutura fílmica de Morris é a de utilizar os flashbacks como motor da sua narrativa, o personagem vai as duras penas lembrando do passado e ele é tão sinistro que Morris resolve apelar para um tipo de reconstituição simbólica, como um homem em silhueta andando como um fantasma em um corredor, tendo como ponto de luz uma janela aberta, com a câmera posicionada em contra-plongée (câmera baixa) e por detrás do personagem. Corredores, túneis e sombras são as imagens preferidas de Morris na recapitulação das memórias nebulosas e esquisitas de Cornwell. 

A história de Cornwell realmente é atípica e estranha. Uma infância sem a mãe que não aguentou o pai por muito tempo. Esse, um trapaceiro profissional, que vivia de dar golpes, que não parava em nenhum lugar. Essa foi a infância de Cornwell, em meio ao pai enganando pessoas e se mudando sistematicamente de endereço, sem pagar aluguel, contas e dívidas. Um homem que viveu parte da vida em prisões e fuga. Essa foi a base familiar desviante de Cornwell, um homem talhado à espionagem, segundo o próprio depoimento. Morris infecta a obra de Le Carré com pitadas fantasmagóricas de sua vida, um personagem que se mistura poderosamente com a ficção, que paira como uma nuvem a carregar o céu ficcional da obra do escritoras aqui também sob a própria vida de Cornwell.

E o que os pombos tem haver com tudo isso? Eles estão na própria história da infância de Cornwell. Representam um poderoso arsenal simbólico deste filme. A lembrança de Cornwell deles vem da época em que o pai o levava para caçar em um clube à beira-mar, onde havia um túnel por onde os caçadores soltavam os pombos para serem alvos de suas espingardas. Os que sobreviviam, voltavam para os arredores do clube, até serem novamente caçados pelas arapucas postas nos lugares onde os pombos gostavam de ficar. Que simbolismo tem essa história, a desse túnel ameaçador que a vida na possibilidade de quem sabe ser morto ou não, em uma rede cíclica sempre a nos deixar disponível para a próxima caçada. Assim via a vida Cornwell/Le Carré: como um risco constante, tenso e irreversivelmente fatal. 

Para quem espera achar em "O Túnel de Pombos" um comentário sobre muitas obras do escritor vai se decepcionar, porque o que move a empreitada de Morris são outras motivações. Morris até se utiliza de algumas adaptações cinematográficas em sua obra, em especial "O espião que sabia demais" (2011), forte fonte sobre a própria personalidade de Cornwell e tratado como matricial para se entender o âmago da obra de Le Carré. Esse é um ponto crucial da obra de Morris, saber privilegiar a própria personalidade de David Cornwell, a instigando, a fazendo revelar o quanto soturna ela é ou invés de ir em busca de uma verdade institucionalizada. 

A entrevista foi captada um pouco antes da morte de Cornwell e fica como o maior registro sobre a sua enigmática vida e carreira. Mesmo que "O Túnel de Pombos" soe Às vezes um pouco antiquado em alguns relances (talvez pelos rastros televisivos deixados pelo docudrama ou seria a trilha musical um pouco apelativa?), não se pode lhe retirar os inúmeros méritos que possui, o de explorar com paixão e assombro os traços da vida e personalidade do grande autor de livros de espionagem do mundo.       

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