Pular para o conteúdo principal

LIMBO (2023) Dir. Ivan Sen


Texto de Marco Fialho

Pode-se dizer que "Limbo", filme australiano dirigido por Ivan Sen, é uma dessas obras aparentemente estáticas e impenetráveis. Essa é a ideia que o diretor parece querer construir acerca de uma sociedade onde uma hierarquização, dominada pelo racismo aos aborígenes, se impõe às relações humanas e impedem que haja uma efetiva harmonia. 

"Limbo" narra a ida de Travis, um investigador de polícia, a uma pequena e estranha cidade onde encontramos pessoas que moram dentro das montanhas, tipo umas cavernas, para analisar se vale reabrir ou não um caso de desaparecimento de uma aborígene, Charlotte, ocorrido há mais de 20 anos. 

O diretor Ivan Sen desde o início assinala que "Limbo" não será um convencional filme policial, com investigações surpreendentes e grandes reviravoltas na história. Ele prefere ir por um caminho bem diferente, bem mais tortuoso e oblíquo. A começar pela fotografia, marcada por um frio preto e branco acinzentado que foge dos contrastes, além de planos predominantemente fixos, que já demonstram o quanto a história não avançaria a largos passos. 

O imobilismo talvez seja a maior marca de "Limbo", mesmo que o investigador Travis visite pessoas e lugares, tudo sempre parece não se alterar e poucas novidades são descobertas acerca do caso de Charlotte, como se os próprios envolvidos, família das vítimas e possíveis algozes, todos, se esforçassem por deixar tudo como está. Algo de sombrio e frio predomina quando Travis vai tentando revelar algum elemento do passado que justifique voltar à investigação.    

Se a maior virtude de "Limbo" não é o esclarecimento dos fatos, a pergunta que o filme suscita é sobre a razão da sua existência. Essa é uma obra de investigações vazias, de personagens que pouco se mostram e se descortinam como indivíduos. Se o filme não avança em sua história, não é porque o diretor não tenha muito o que dizer, muito pelo contrário. O que Ivan Sen mais afirma em "Limbo" é sobre uma sociedade imóvel, cristalizada por uma hierarquização violenta, onde os povos originários não possuem direitos, sequer quando são perseguidos, sequestrados ou mortos. Os planos apáticos dizem isso, a aridez do ambiente parece penetrar nas almas dos personagens, sendo eles povos originários ou brancos.

Em "Limbo", mais importante do que acompanharmos uma história com começo, meio e fim é contemplarmos sobre esse vazio que o diretor Ivan Sen nos apresenta. A falta de dinâmica da história é compensada pela maneira como os personagens se relacionam cena a cena. Assim, ambiente árido, com suas paisagens cruas, se entrecruzam com esses personagens que não esperam muita coisa da vida, enquanto das esferas oficiais, melhor nem comentar o que se espera delas. Mas quando Travis começa a descobrir algumas pistas, vem uma ordem superior para se encerrar novamente o caso. Para uma sociedade assentada na indiferença à justiça, resta ao passado continuar bem enterrado, e o presente, tal como está posto.          

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...