Pular para o conteúdo principal

DOENTE DE MIM MESMA (SYK PIKE) 2023 - Dir. Kristoffer Borgli



Texto de Marco Fialho

O filme parte de uma premissa absurda. Signe (Kristine Kujath Thorp) não se conforma com o sucesso midiático do namorado (Eirik Saether), um artista visual contemporâneo que cria arte a partir de objetos roubados. Tudo aqui é doentio e bizarro. Signe começa a se autoagredir até chegar a deformidade. Sua transformação facial é de tal ordem que ela acaba chamando a atenção da mídia. 

O filme critica uma sociedade egocêntrica, profundamente infantilizada, em que as pessoas se submetem a diversos absurdos para chamarem a atenção. Depois de um certo momento, lá para o último terço, o filme não consegue mais desenvolver o próprio absurdo a que se propôs e perdendo consideravelmente o ritmo inicial. 

A postura da direção me parece muito cômoda em relação aos fatos bizarros alinhavados. Tudo é tratado com muita naturalidade. Tem uma cena esdrúxula em que ele faz um discurso em meio a um jantar da alta sociedade e Signe justamente começa a passar mal nessa hora, ele não só ignora como diz que precisa terminar a sua fala. 

Ao meu ver, esses filmes que se utilizam de uma proposta realista para tentar ultrapassa-la, ao exagera-la, lhe conferindo um tom sempre acima, soam muito forçados e querem se promover por meio do choque, embora não consigam desenvolver realmente as ideias que foram colocadas à mesa nos minutos iniciais. 

"Doente de mim mesma" passeia por esse universo, mesmo não sendo um dos mais radicais nessa concepção do exagerar para chamar a atenção, e até tem alguns momentos bem-sucedidos que vale a pena conferir.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...