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GYURI (2022) Dir. Mariana Lacerda / COMO FOTOGRAFEI OS YANOMAMI (2018) Dir. Otavio Cury



A beleza própria de um povo da floresta: os plurais Yanomami  

Texto de Marco Fialho

"Gyuri" e "Como fotografei os Yanomami" são dois documentários que esbarram em alguns temas em comuns. Ambos, tratam da Nação Yanomami, tem em comum a fotografia e o líder indígena Davi Kopenawa, que é Yanomami. Mas os filmes também possuem entre si diferenças consideráveis e delas comentarei aqui nessa dupla análise. 

"Como fotografei os Yanomami" parte de uma pesquisa acerca de profissionais da enfermagem e sua dedicação em cuidar dessa imensa população que habita na floresta, em lugares muitas vezes inacessíveis. Apesar de ser um bom documentário, a obra de Otavio Cury peca por retratar muito mais o ponto de vista do homem branco sobre essa cultura, aqui tratada como exótica, basta ver a longa discussão sobre o incômodo que os Yanomami sentem ao serem fotografados. Isso porque eles não querem rever os seus antepassados mortos registrados em imagem, pois eles começam a chorar imediatamente. 


Esse enfoque escolhido salienta por demais esse exotismo e fica evidente que a câmera está sempre como elemento exógeno e impertinente daquela cultura. Mas tudo isso acontece porque o diretor escolher uma aldeia que vê a questão entre imagem e memória dessa maneira, como uma das enfermeiras registra em seu depoimento, tendo outros Yanomami que aceitam tranquilamente a filmagem. Basta lembrar que existem mais de 25 mil Yanomami divididos em 322 aldeias na Amazônia. Davi Kopenawa aparece em "Como fotografei os Yanomami" apenas em legendas através de pensamentos sobre a cultura do seu povo, embora esse recurso não colabore muito para que o filme chegue a um lugar de maior interesse. O documentário não consegue adentrar nessa cultura nem realmente interagir com os personagens que retrata, caindo em um distanciamento que permite um mergulho no tema abordado.

Já "Gyuri", dirigido pela estreante Mariana Lacerda, parte da história de Claudia Adajur, fotógrafa judia de origem húngara e ativista da causa indígena pelo mundo. O filme começa pela história dela com o regime nazista, de como escapou da morte até se reencontrar no meio dos Yanomami e iniciar uma luta feroz que seria vitoriosa pela demarcação da terra, como Nação Yanomami, um território único compreendido por todos as 322 aldeias. O filme narra a volta de Claudia (aos 90 anos) ao território que transformou sua vida e o reencontro com o líder Davi Kopenawa. O encontro é facilitado pela presença dos ativistas que já trabalharam com Claudia, no caso, Carlo Zacquini e Peter Pál Pelbart, que a acompanham na empreitada.


As conversas de Claudia com Davi são preciosas pela comunhão de pensamentos acerca da demarcação das terras dos Yanomami, há uma ternura demonstrada a cada cena, além de uma gratidão de Davi pelos esforços da fotógrafa em garantir aos Yanomami um pedaço generoso de terra. Quase no final há uma foto tirada de todos da aldeia e os convidados, onde Claudia dá vários beijos na mão de Davi, que chega a ficar sem graça ao ver os integrantes da aldeia rirem dessa escancarada declaração de carinho e amor. 

Um dos brindes que recebemos ao assistir a esse belo e afetivo documentário é a oportunidade de ver várias fotos maravilhosas de Claudia, sempre tocadas por uma sensibilidade sem igual. O respeito e carinho da personagem aos Yanomami fica evidente ao se ver as fotos, não pairando dúvidas de seu amor por esse povo. Outro brinde é assistir Davi Kopenawa falando sobre a cultura Yanomami, sua religiosidade e visão coletiva da terra.


Na maioria das vezes, Mariana Lacerda deixa a câmera registrando as conversas, que lentamente vão compondo um painel elucidativo da questão do território dos povos originários, além de captar momentos mágicos do cotidiano. Esse cuidado e essa atenção da diretora ao ambiente como um todo, faz seu filme reacender a todo o instante quando parece que decairia, desde uma brincadeira despretensiosa de crianças jogando bola até o flagrante de uma chuva amazônica. Essas cenas dão um respiro fantástico ao filme. Porém, o que mais fica desse projeto é um transbordamento afetivo que não cessa de brotar cena a cena, um primor de filme, repleto de amor, uma aula profunda de humanidade.

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