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BENJAMIN ZAMBRAIA E O AUTOPANÓPTICO


Manipulando a película, o personagem e a vida

Texto de Marco Fialho

Um primeiro alerta se faz necessário. "Benjamin Zambraia e o autopanóptico", dirigido por Felipe Cataldo não é exatamente um filme industrializado, perfeitamente embalado para ser exibido nessas salas perfumadas dos multiplex da vida, ou melhor, dos shoppings centers, esses templos do consumismo desenfreado. Diríamos que este é um filme com pretensões pré-industriais, filmado em película e cheio de intervenções artesanais, em que a fotografia e o som são construídos por diversas camadas, não só na filmagem como fundamentalmente no processo de finalização. É um filme fundamentalmente para amadores (no sentido que o crítico francês Jean Douchet delineou ao termo), para aqueles que buscam no cinema uma experiência para além do mundo da razão.  

Felipe Cataldo realiza o filme a partir de "Benjamin", segundo romance de Chico Buarque, mas devotado da mais imperiosa das verdades cinematográficas, a da convicção de que um filme é um filme e um romance é um romance, de que não existe uma transposição direta de uma mídia para outra, e sim uma recriação a partir de uma outra. Há uma inspiração e uma subsequente transpiração, afinal, esse "Benjamin Zambraia e o autopanóptico" é um filme de Felipe Cataldo, esse realizador afinado com uma estética do cinema de invenção, ou udigrudi, ou cinema marginal, como queiram. Não importa a nomenclatura, o que importa é o gesto e Cataldo está imbuído de um espírito libertário e debochado que muito se sintoniza com esse tipo de produção. Cabe registrar que os curtas de Cataldo já estavam impregnados desse fazer marginal e de um uso manipulatório da película, como em "Monocelular" (2009), em que encontramos também esse tipo de interferências, inclusive na cor (lembrando que P&B também é cor) e na textura. A textura é um caso à parte no filme. Cataldo realizou intervenções diretamente na película, conferindo a ela uma sensação de gastura e de ação do tempo, que casa muito bem com uma camada sonora criativa, não diegética, e genial, metabolizada pelo grande Octávio Terceiro, que ao invés de buscar uma sincronicidade cria perturbações quando coadunadas com as imagens, um verdadeiro luxo. E assim o filme caminha, nos causando fricções nos sentidos até o fim.      


Infelizmente, esse desprendimento na concepção e ato de filmagem que vemos em "Benjamin Zambraia..." está cada vez mais raro em nosso cinema, pois o que mais vemos hoje são filmes concebidos por uma ideia de mise-en-scène engessada, tanto pelas interpretações quanto pela direção de arte naturalistas e um uso submisso da câmera perante à movimentação dos atores em cena. Como um bom iconoclasta, Cataldo passa por cima das cartilhas do bem filmar, do uso correto dos conceitos cinematográficos para impor a sua autoridade e a visão sobre a vida e o cinema. (E cabe o registro de que Cataldo é Benjamin Zambraia e Benjamin Zambraia é Cataldo). Durante o filme existem duas câmeras, a de Cataldo e a de Benjamin, ambas estão em cena, uma explícita e outra implícita, essas propõem camadas à obra, diálogos e ranhuras desagradáveis. Afinal, cinema não é só flores, é também ruído e provocação dos sentidos. Esse é um filme que atua diretamente nos sentidos, que os aguça e mexe com os nervos e provoca espasmos involuntários, um cinema que sobretudo estimula a corrente sanguínea. Se você apenas assiste a filmes em shopping centers fatalmente não sabe sequer do que estou falando, aqui a experiência é outra, e a praia também. A praia aqui tem um velho (um excepcional Carlos Mossy) que vive numa gruta na pedra do elefante e que pode vir a ser em algum momento o próprio Benjamin. 

Uma atualização que Cataldo realiza em relação ao livro são a introdução de câmeras que flutuam entre as cenas, que estão a perseguir, a registrar sem registrar, pois quando as imagens se banalizam elas perdem a razão de existir, elas agem contra a sua própria funcionalidade. Há um humor em ver nossos corpos baterem nas milhares de câmeras existentes no mundo, tal como esbarramos nos objetos naquelas lojas de quinquilharia. Mas afinal, para que registrar tanto? Nós já somos milhões de câmeras sobre o mundo, nosso olhar já é múltiplo o suficiente. As câmeras estão sempre presentes, como entes aparentemente autônomos e autômatos, elas já viraram um daqueles apetrechos ideais para serem empilhados como sucatas modernas, como sobras. Se só temos dois olhos para que tantos mais? As câmeras viraram também um símbolo do obsoleto. Conseguiremos realmente ver tudo o que se registra com elas? A própria ideia de Michel Foucault de analisar esse mundo controlador com câmeras de segurança a nos vigiar e punir vai virando água a escorrer pelos bueiros dos olhos do poder. É brilhante quando Cataldo ateia fogo em uma câmera, mesmo sendo um ato concreto, ele vem imerso de um simbolismo fantástico. 


"Benjamin Zambraia..." resgata algo que está na alma do livro de Chico, que talvez tenha composto esse Benjamin como uma homenagem ao próprio filósofo Walter Benjamin. Ao revestir o personagem com um quê de flâneur (ideia que W. Benjamin sugou do poeta Charles Baudelaire), desse andarilho a contracenar diretamente com o seu tempo, ou melhor, como um personagem capaz de antever a decadência de seu tempo pelo uso da observação, pela atenção às transformações destruidoras do passado que ainda persiste no presente. Ou então, Benjamin é flagrado flutuando em um protesto político violento, daquele regado a bombas de efeito moral e gás lacrimogênio, nos protestos tão comuns à época da Copa do Mundo no Brasil, no impeachment da Dilma e no governo golpista de Michel Temer. Inclusive essa é a forma que Cataldo encontra para inserir o político existente no livro em sua obra. Mas em "Benjamin Zambraia..." a própria câmera é um flâneur, ela fica a vagar a esmo, na paranoia por registrar, embora esteja perdida em um mundo onde ela esbarra com outras câmeras. 

 A liberdade da inspiração e da autonomia presentes em "Benjamin Zambraia e o autopanóptico" não quer dizer que Cataldo despreze o livro de Chico. Muitas das ideias do livro aparecem sob outras formas. Se no livro existe uma ideia de circularidade da história, no filme ela também está viva, embora em um sentido diferente. Há constantes reiterações no filme de Cataldo, frases e imagens que se repetem inadvertidamente, como a fabulosa "Benjamin Zambraia, que não lembra de alguma vez ter morrido em sonhos". Outra reiteração acontece na aparição  sistemática de uma imagem estilizada de Yemanjá numa pedra à beira-mar ou na insistente de câmeras volteando Benjamin desde o início da história ou a reincidência de Benjamin olhando a vitrine de uma loja que vende câmeras. A circularidade no filme surge como um elemento a reforçar e a retrabalhar os conceitos do filme, o de um homem caótico em suas memórias, que se esforça em ver o mundo à sua frente. E como esquecer da circular imagem da pedra do elefante e suas histórias mitológicas, Cataldo se esparrama nessas narrativas tão sui generis.    


Um dos elementos cruciais de "Benjamin Zambraia..." está na escolha de seu elenco. A presença de Helena Ignez, de Octávio Terceiro (também presente na parte da composição sonora do filme) como pais do protagonista confere à trama um tom anárquico perfeito, essas almas geniais são a melhor maneira de construir cenas livres e verdadeiramente cômicas. O uso da dublagem como recurso para deliberadamente implodir com a sincronicidade, para acentuar o ar de deboche e a autoironia dos personagens são um ponto alto de "Benjamin Zambraia...", enquanto o som passeia a esmo em paralelo, e lembrando que este recurso acontece em quase todo o filme. Outra cena maravilhosa é a da paquera no bar, além de criativa, inspiradora, com toques de ficção científica, etérea, inclusive no som. E como é incrível a ideia de Benjamin e o amigo (Igor Cotrim) desaparecerem por uns instantes e serem substituídos por duas câmeras panópticas que ficam a flutuar na cena, para o espanto das duas paqueras (Bárbara Vida e Daniela Fontan). Uma delícia de inventividade e ironia fina. Tem aí embutida uma homenagem à vida boêmia carioca, essa de quem ama os bares, a cerveja fortuita, o papo despretensioso, do acaso da vida das esquinas, no que também é a cara de Cataldo.            

Cataldo resgata essa relação anárquica da interpretação, da câmera e do som livres, faz cinema com a liberdade marginal de quem rouba com categoria, afinal, a arte é feita de roubos, pois ninguém rouba algo que não gosta. Na arte, o roubo é dignidade, e o ladrão, digno, e tudo se traveste de homenagem. Assim, "Benjamin Zambraia..." tem muito de Tonacci, Bressane, Sganzerla e Helena Ignez e como é bom assistir os arroubos de um cinema que na estética pouco influencia os nossos dias. Se os diretores citados acima por sua vez roubaram os transgressores "jumps cuts" de Godard, Cataldo, por sua vez, rouba de todos eles: assim é o cinema (e as artes). Porque aqui não é só o espírito, mas ações reais detectáveis nas interpretações, na concepção, no uso da câmera, no som e na leveza da combinação desses elementos. Um cinema que não está moldado pelas regras caretas e formatadas pelo mercado. "Benjamin Zambraia..." é um cinema unha e carne, sua assinatura está em como os corpos se interpõe em cena, em como a câmera os capta, sem os colocar nenhuma forma de amarras, deixando eles se libertarem em cena, um cinema sem a necessidade de uma decupagem opressora. Um cinema capaz de fazer os corpos resistirem ao que está estabelecido na sociedade e no próprio fazer cinematográfico. É necessário falar disso novamente, das fronteiras, dos entre, do transitório, do que aceita o impermanente, o caótico da realização, o do fazer para não ser igual ao que já se faz e se vive. Buscar outras formas de existir e filmar. Enfim, o ato de filmar ser o próprio existir. 

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