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VIAJANDO COM OS GIL (2023) e EM CASA COM OS GIL (2022) Direção Geral Andrucha Waddington


O griot e sua gente

As  séries "Na casa com os Gil" e "Viajando com os Gil" são aquelas delícias que só mesmo a nossa música brasileira poderia nos presentear. A série vai muito além do que poderia imaginar ao transpor a ideia de documentar uma reunião de pré-produção e turnê de um grande artista brasileiro. Não é sobre Gil, não é sobre a sua família ou sobre música. O que a série revela são pessoas vivendo uma magia por onde perpassa um cotidiano no qual um amplo processo de aprendizado está em curso. 

Óbvio que estamos a ver uma parte desse processo, uma vivência editada, mas o mais incrível é que essa montagem poderia ser realizada de muitas maneiras, privilegiar diversos ângulos e perspectivas de personagens. Mas é importante destacar que o centro dessas narrativas está no primeiro episódio de "Na casa com os Gil", quando na casa da região serrana do Rio, Flora e Gil abrem a reunião familiar com uma árvore genealógica da família, a começar pelos pais de Gilberto Gil. Essa sequência revela talvez o que seja o maior tema dessas duas séries: o da ancestralidade. É disso que se trata essa história, a de um velho griot ensinando a sua gente sobre os mistérios de uma tradição musical, hoje irradiada por mais de 40 familiares que participam dessa série documental. E acreditem, a presença participativa dos bisnetos no filme é um dos pontos altos da série. A criançada não é fácil, cada uma é mais articulada do que a outra e defendem suas ideias com muita autoridade, aliás, como só um bom Gil sabe fazer.   


Creio que esse seja o olhar que permeia a direção geral de Andrucha Waddington (bom lembrar que o diretor já filmou várias turnês de Gil e conhece bem a família do cantor/compositor, o que facilitou muito captar momentos de intimidades da família), o de tentar reunir tantos olhares a partir da centralidade da presença de Gil e de mostrar como esse cotidiano aparentemente banal, de refeições, diversões, conversas, afetos e desavenças participam de um processo educativo que o patriarca Gil lentamente vai colocando para os seus, basta pensar numa perspectiva de "Em casa com os Gil" até "Viajando com os Gil" que permite uma visão mais límpida de como Gil vai dando lições poderosas de como se profissionalizar como artista, desde os cuidados com as repetitivas e cansativas passagens de som até a escolha cuidadosa de cada playlist dos shows. 

É muito interessante sentir na turnê o quanto os filhos, netos e agregados vão sentindo como se faz uma carreira artística, o quanto de labuta diária tem por detrás do glamour do palco, que este é apenas a parte final de um trabalho incansável nos bastidores. O caso mais emblemático é o do neto de Gil, o Bento. O rapaz começa praticamente negando aquilo tudo, a reunião, os ensaios e tudo o que podia questionar. Ao final da turnê parece o mais saudoso com todo o processo, passa a impressão que não quer encerrá-lo. Vários netos são incorporados à banda de Gil e o resultado no palco é surpreendente, desde os arranjos das músicas até a execução em si, sempre primorosas e com uma energia contagiante.  


Quando se fala de Bento, sempre o mais questionador durante as duas temporadas da série, pensamos logo na riqueza que ela concentra também para nós espectadores. Fica uma sensação deliciosa desse universo familiar, são muitas emoções que transitam pela série, pois estamos a ver e sentir a presença de uma família riquíssima que vive tudo à flor da pele. Flora Gil logo se revela uma grande matriarca, de como consegue juntar os diversos braços de família que Gilberto Gil construiu ao longo da vida em vários casamentos, sempre agraciados com filhos e mais filhos. Agregar esse mundo de mais de 40 familiares dispersos é um atributo e qualidade de Flora, sem dúvida, sempre atenta aos detalhes da família como um todo. O que parece muito difícil para muitos, para essa família é uma questão de afeto permanente e esse é um grande diferencial. Quando a família está na Europa e cai na estrada em um ônibus, a história ganha um fascínio a mais, porque assume um lado também aventureiro, sem contar que a filha de Gil, a produtora da turnê Maria Gil, se casa no meio do caminho na Itália. Essa é uma turnê realmente amorosa, com afetos saindo da tela incessantemente.  

Um mérito dessa série documental é o de mostrar várias desavenças e discordâncias. Esse viés confere uma veracidade maior ao cotidiano, pois a vida é mesmo assim, com as manias, as idiossincrasias e as criquisices de todos nós. De perto, realmente, ninguém é normal, nem os Gil e tão pouco o próprio Gil. Andrucha consegue organizar esse processo de vida cotidiana e artística com muita precisão e realiza um documentário repleto de vida, com muitíssimos momentos de emoção. Se algo na rotina parece não engrenar em algum momento, tudo bem, Andrucha tem em mãos somente o repertório genial de Gilberto Gil para tomar à tela e continuar nos emocionando. "Viajando com os Gil" é uma aula de brasilidade, de como um artista como Gil é tão essencial, sobretudo pelo equilíbrio que criou entre cultivar uma família e desenvolver um ofício de maneira impecável, um espetáculo de horas para se ver com os olhos cheios d'água.

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