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DISCO BOY (2023) Dir. Giacomo Abbruzzese


Ratificando velhas visões

Texto de Marco Fialho

"Disco Boy" que remeteu de imediato a um filme que assisti recentemente, o instigante "Bom trabalho", da diretora francesa Claire Denis. "Disco Boy", assim como o filme de Denis também faz uso de um treinamento para soldados que vão lutar na África, e narra igualmente a crise existencial de seu protagonista Alex, cuja performance final, de certa forma, emula novamente ao filme francês. 

Só que o resultado aqui é bem diferente do filme de Denis, em especial porque o alvo da diretora é um só, o Oficial Levant, enquanto "Disco Boy" se perde em tentar dividir o protagonismo entre um personagem africano e Alex, um imigrante bielorrusso que escapa de seu país de origem para entrar para a Legião Estrangeira na França e assim conquistar cinco anos depois a cidadania francesa. Não há em "Disco Boy" uma crítica sequer ao militarismo nem sequer uma mais contundente ao sistema neocolonial capitaneado no enredo pela França.


Mas o primeiro indício que o diretor Giacomo Abbruzzese dá de que algo está desandando em sua abordagem é quando retrata o grupo rebelde nigeriano de maneira exótica, tanto em seus rituais, por demais idealizado e que beiram o mágico, basta pensar em como a cena da dança é encenada por Abbruzzese. O melhor de "Disco Boy", sem dúvida está na atuação e personagem Alex, interpretado com a competência de sempre por Franz Rogowski, que aliás tem momentos sublimes de atuação. 

No entanto precisamos reconhecer de que Jomo, interpretado por Morr Ndiaye, serve como apoio dramatúrgico para Alex, este sim com um lastro dramático desenvolvido, com uma história. Esse quase apagamento de Jomo torna-se a grande pedra no sapato desse roteiro que tropeça em suas próprias linhas mal traçadas. As únicas coisas que sabemos de Jomo é que caso fosse branco gostaria de ser dançarino numa boate na França e que liderava o grupo dissidente ao governo nigeriano. Já Alex, tem um arco dramático bem delineado, é um órfão em busca de aceitação, embora os constantes revezes criem nele uma personalidade rebelde, inconformada e violenta. 


Outro aspecto complicado de "Disco Boy" são os aspectos simbólicos mal explorados ou que afloram de maneira questionável, como o ritual de cunho psicológico um tanto forçado, em que a alma de Jomo passa para o corpo de Alex, o que sublinha mais uma vez o papel subalterno dramaturgicamente reservado aos corpos negros pelos brancos colonialistas. Ao receber a alma de Jomo Alex realiza o primeiro ritual de passagem para se tornar francês, a do colonizador que está no comando da vida, da morte e do destino da alma de um africano. 

Para ratificar de vez a subalternidade dos personagens pretos no filme, o diretor Abbruzzese dá o mesmo tratamento para Udoka, interpretada com muita personalidade por Laëtitia Ky, que faz o papel da irmã que divide com o irmão o mistério do culto da dança. Mesmo que sua personagem seja completamente jogada às traças, Laëtitia Ky consegue entregar muito pela imensa expressividade marcada nas trocas de olhares em suas breves aparições, fora o seu talento para a dança que é inquestionável. Nas cenas em que dança fantasiada ela dá um show, mesmo que sua presença seja apenas uma ilustração, ou sirva de uma bela moldura para que o personagem de Alex (Franz Rogowski) possa encontrar um momento de apaziguamento e de reafirmação de seu protagonismo.

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