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CRÔNICA DE ANNA MAGDALENA BACH (1968) Dir. Danièle Huillet e Jean-Marie Straub


Uma biografia dominada pelo distanciamento e pela música

Texto de Marco Fialho

Logo no primeiro longa realizado pelo casal Huillet e Straub o estranhamento se faz presente. "Crônica de Anna Magdalena Bach" é um filme incomum e original em sua forma. A proposta dos diretores pode soar surpreendente, porque realmente o é, há um impacto inevitável ao nível da opção narrativa. Estamos defronte de um estilo muito próprio, de um cinema que nos desafia a decifrá-lo. Este é um filme biográfico, mas não no sentido convencional, aliás, bem longe disso. Aqui Bach chega diferente, como um protagonista, sobretudo na música, não se trata da vida diária dele, mas de sua carreira.

A narrativa começa com Anna Magdalena Bach (também musicista e cantora) em voz over, falando sobre o marido, de como criava as músicas, as cantatas, sinfonias e outras formas de expressão típicas do século XVIII. Algo interessante é o tempo que os diretores permitem aos espectadores de ouvir músicas quase inteiras, o que nos fazem mergulhar nas composições de Bach, em que o cravo era o instrumento principal. Essa imersão musical é um diferencial fundamental em filmes sobre música, que raramente mostram a música em sua plenitude e priorizam mais a individualidade dos artistas do que o trabalho em si.


Um outro aspecto que o filme levanta é a da aspereza da vida do músico do século XVIII, mesmo que Bach tenha sido um artista referencial e bem-sucedido para os padrões da época, vale lembrar das humilhações nas quais o grande compositor teve que passar, desde a relação com a igreja até as cortes do império prussiano, antes de se consagrar no final da vida. Os diretores também mostram o quanto Bach produziu de música durante uma vida longa para os parâmetros do século XVIII. A direção de atores retira qualquer traço de emoção e guarda uma neutralidade que sublinham o tom distanciado no qual os diretores pretendem imprimir em seu inusitado trabalho.

"Crônica de Anna Magdalena Bach" abdica praticamente de diálogos, eles até estão presentes, mas sempre perifericamente, já que a grande protagonista do filme é a música de Bach. Curiosamente, Bach nos chega pela voz de sua esposa, narradora onipresente, e ainda pelos enquadramentos rigorosos e suntuosos dos diretores. A câmera é um dos elementos mais significativos desse filme de estreia do casal, por eles escolherem movimenta-la com poesia e harmonia, ou, em outros momentos, preferirem fixa-la e formar quadros de profundo requinte, inspirados em telas de artistas renascentistas, mesmo que o filme seja inteiramente filmado em P&B.

O cinema realizado por Huillet e Straub, em pleno ano de 1968, antes de mais nada incorpora uma dose expressiva de estranhamento, em especial como as músicas adentram na trama. A narração assume uma função de ratificar que não veremos uma reconstituição histórica habitual, mas sim um ponto de apoio para que possamos usufruir do principal: o impacto que a música mágica e inebriante do genial Johann Sebastian Bach provoca em que a escuta. Pode-se afirmar que esse é um filme frio sobre uma música quente.

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