Pular para o conteúdo principal

UM CERTO CINEMA GAÚCHO DE PORTO ALEGRE (2023) Dir. Boca Migotto


Uma retrospectiva afetuosa e sem condescedência

Texto de Marco Fialho

O longa documentário "Um certo cinema gaúcho de Porto Alegre" aborda a saga do cinema de Porto Alegre dos anos 1980 (Deu pra ti, Inverno e Coisa na roda) a Tinta Bruta (2018), baseado na pesquisa de doutorado do próprio diretor Boca Migotto. Por meio de muitos depoimentos, o filme vai acompanhando as diversas fases do cinema de Porto Alegre, desde a primeira fase do super-8, em que a turma da posterior Casa de Cinema de Porto Alegre arriscou os primeiros passos, em especial Carlos Gerbase e Giba Assis Brasil, numa espécie de movida cultural (para além do cinema) ou como uma nouvelle vague gaúcha, essencialmente urbana nas temáticas e cheia de experimentos narrativos. 

A entrada de Jorge Furtado para o grupo colaborou para redefinir papéis, já que o mesmo vinha da televisão, trazendo uma linguagem mais ágil e uma pegada clássica. Com a Era Collor, o barco do cinema brasileiro foi a pique e sobrou apenas a lei do curta como única política pública de financiamento para o cinema. Com "Ilha das flores" (1985), Furtado botou o cinema do Sul em evidência no Brasil e no mundo e criou uma escola que marcou a década de 1980 e as décadas posteriores, consolidando as transformações iniciadas anos antes com "O dia que Dorival encarou a guarda" (1983), curta inteiramente filmado em estúdio. 

Mas Migotto mostra como a geração de 95, que volta ao Super-8 para fazer filmes mais inventivos em termos de linguagem do que a geração anterior, enfrenta com ousadia o fazer cinematográfico mais convencional e que os fez abrir um conflito aberto com a geração da Casa de Cinema de Porto Alegre, encarado e denunciado por eles como comercial em demasia. O documentário lembra da fundamental chegada de Beto Brant de São Paulo como elemento decisivo para mostrar novas formas de produção, com "Cão Sem Dono", de 2006, adaptação do livro do romancista Daniel Galera. Em 2007, Gustavo Spolidoro filma "Ainda Orangotangos", em ousado plano-sequência, também chamando bastante atenção de quem estava a buscar novidades no panorama cinematográfico gaúcho. 

Outros marcos cruciais são os filmes de estrada, de deslocamento, em que os personagens se punham em constante processo de aprendizado e experimentação. São filmes como "Dromedário no asfalto" (2014) e "Morro do céu" (2011). No mesmo período as produções gaúchas assumem um viés mais contemporâneo e voltam a ser vistas fora do espectro gaúcho, com personagens mais introspectivos e melancólicos, em obras como "Castanha" (2014), Rifle (2016), ambos de Davi Pretto e os filme da dupla Felipe Matzembacher e Marcio Reolon, "Beira-mar" (2015) e "Tinta Bruta (2018), sem esquecer de "Mulher do pai" (2016), de Cristiana Oliveira, que redefiniu o filme de fronteira. São filmes que colocaram o Rio Grande do Sul novamente no cenário internacional e nacional. 

O documentário termina com a análise de críticos salientando o quanto o cinema gaúcho se consolidou a partir dos anos 1980, como sendo de classe média, branco, masculino e com pouquíssimos negros e mulheres como diretores, e embora o sucesso da Casa de Cinema de Porto Alegre foi crucial, reafirmou um cinema mais clássico e convencional. Somente no começo do século XXI que operou uma mudança radical, com produções que rascunham uma Porto Alegre no purgatório, que refletia um contexto mais sombrio e pessimista, onde "Tinta bruta" foi um ótimo exemplo. Foi então se reforçando a ideia de que o cinema deve ser impreterivelmente uma arte que deve ser um inferno para os detentores do poder e deixá-los temerosos com o poder que essa arte carrega. 

"Um certo cinema gaúcho de Porto Alegre" consegue fazer um painel bem amplo, de um cinema que em 40 anos, pouco dialogou com o país, que muito se fechou em si mesmo, mas que nos últimos anos vem reestabelecendo esse elo com o restante do país, como bem frisou o realizador Felipe Matzembacher: "sou brasileiro e quero ser visto assim". O documentário consegue, com eficiência, olhar para esse cinema sem condescendência, o que é importante nesse tipo de proposta retrospectiva.  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...