Pular para o conteúdo principal

ROSA (2023) Dir. Valmir Moratelli e Libário Nogueira


Um documentário que não desabrochou 

Texto de Marco Fialho

"Rosa: a narradora de outros brasis" é um documentário em homenagem à carnavalesca, figurinista, cenógrafa e professora Rosa Magalhães. Uma pena que o filme não esteja à altura dessa grande artista do nosso Carnaval, retratada praticamente em um único plano, o que torna o registro enfadonho em diversos momentos. Faltou ainda vermos imagens dos desfiles conforme a carnavalesca falava sobre eles ou de croquis a mostrar suas ideias e concepções sobre a arte carnavalesca. 

Alguns momentos são interessantes mais pelo discurso da personagem do que pela maneira como ela foi filmada. Há ainda depoimento de professores, carnavalescos e estudiosos da obra de Rosa que discursam acerca da riqueza de seu trabalho. Logo no início, Rosa explica que ser carnavalesca propiciou a ela ser diretora, artista, professora em um único combo e isso a fascinou seguir pela profissão. Aluna de Arlindo Rodrigues e Fernando Pomplona (na Faculdade de Belas Artes), a arte de Rosa Magalhães marcou uma época em que os desfiles reafirmaram a presença do luxo e o desenvolvimento dos carros alegóricos em importantes elementos dos desfiles das Escolas de Samba e os desafios para superar os desfiles do carnavalesco da Mocidade Independente de Padre Miguel, Renato Lage, nos anos 1990, quando Rosa defendia a Imperatriz Leopoldinense. 

O documentário passa rápido pelos principais desfiles da carnavalesca, com destaque para o ano de 1982, com a vitória inconteste do Império Serrano, com o exótico tema sonoro "bum bum paticumbum prugurundum". Vemos ainda imagens do barracão da Acadêmicos do Tuiuti, em 2023, despedida oficial de Rosa Magalhães do Carnaval Carioca. Alguns croquis de roupas são mostrados pelos diretores, talvez as melhores imagens do trabalho cuidadoso que  Rosa fazia nos bastidores, o que indica que poderíamos ter mais dessas imagens no filme. Faz falta não ver Rosa Magalhães trabalhando no barracão ou mesmo nos bastidores, seja desenhando ou discutindo suas ideias com a equipe de carnaval da escola de samba. 

No todo, ficam umas ideias interessantes no ar, como a visão de Rosa sobre o Carnaval: "no Carnaval, o povo mostra que é criativo ao superar as limitações da vida". A melhor parte do documentário está no final, quando a câmera flagra um poema de uma de suas aderecistas sobre o sagrado feminino. É um longo poema, mas que muito diz acerca da presença das mulheres no Carnaval brasileiro. "Rosa: a narradora de outros brasis" falha ao não mostrar o principal: os sambas e os desfiles que cairiam como uma luva aos depoimentos dela e dos outros entrevistados.  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...