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BYE BYE AMAZÔNIA (2023) Dir. Neville D'Almeida

Uma sinfonia agônica e poética da Amazônia

Texto de Marco Fialho

A primeira exibição pública de "Bye bye Amazônia" foi marcada pela catarse coletiva. Poucos filmes representam tão exemplarmente a atual e histórica catástrofe brasileira como ele. Nele ecoam o desespero antropológico de Darcy Ribeiro, a força primitiva e artística de Glauber Rocha, a beleza sinfônica e redentora do maestro Heitor Villa-Lobos e a ancestralidade dos povos originários e negros do Brasil. "Bye bye Amazônia" pode ser definido como uma sinfonia agônica da vida amazônica, uma poesia performática, um grito nascido do coração da floresta, um desabafo preso na garganta de um povo que implora por socorro há mais de 500 anos. 

"Bye bye Amazônia" resgata a epopeia de Carlos Diegues no desejo de mostrar o Brasil aos brasileiros, ou de revelar e surpreender os povos por exibir o óbvio, como diz a canção de Caetano Veloso, oculto pela ganância desmedida e assassina. O filme de Neville D'Almeida denuncia, e muito, mas jamais perde a ternura, insiste teimosamente em poetizar a beleza que faz da Amazônia nosso maior monumento, como disse o diretor após a exibição: "A Europa fez edificações estupendas, mas nós temos a beleza grandiosa da nossa gente, da flora e da fauna". Essa é a tragédia permanente da nossa saga anticivilizacional, a de ter que lutar pelo óbvio, pela vida originária que hoje pode também nos salvar do extermínio planetário. 

Senti ecoar em mim, uma dramaturgia que muito me lembrou o clássico "Hiroshima Mon Amour", de Alain Resnais, que em meio aos escombros civilizacionais evoca a arte como impulso salvacionista. Neville mostra os corpos esquálidos de crianças e animais carbonizados de hoje, tece a vã tentativa de busca pela vida perdida tal como Resnais aludiu nos metais contorcidos pela hecatombe atômica e na marca de corpos evaporados e delineados no chão dos restos arquitetônicos, na eterna saga do homem ser o lobo do homem. Há esperança quando vemos Mac Suara Kadiwell com seu corpo-jacaré a se imiscuir às borboletas à beira-rio! Lampejos de poesia vindos da vida que teimam os poderosos em tentar exterminar. Quanta poesia pode caber numa imagem? E são tantas a nos instar a indignação, mas sempre a nos evocar igualmente a beleza, à magia e os sentimentos que só aquela tela imensa pode nos permitir. Cinema em estado bruto, embora transbordante de poesia, que chega nos corpos em close, desesperados, agônicos e belos. É a performance trágica de um povo que chora por si e por nós, que não aguenta mais a dizimação permanente e que insiste como poucos povos resistiram na história do mundo. Há por isso o grito incontido, primevo e entalado. Tudo no filme emana justiça, um canto eterno dos persistentes, dos que sobrevivem para nos salvar como humanidade. 


"Bye bye Amazônia" traz um Neville ciente de que algo precisa começar urgente, para salvar os povos originários que são a nossa alma. Um basta é preciso existir e ele está em cada cena filmada, em cada personagem que empresta seu corpo para dizer tanto em tão pouco tempo de filme e muitas vezes diretamente para o público, quebrando permanentemente a quarta parede, em um discurso denunciatório direto. A tragédia brasileira precisa acabar e tem que ser agora, no hoje por força de não mais existir o amanhã. Como teimosamente diz Mac Suara Kadiwell "eternamente, eu sou a natureza. Eu sou a natureza". Nesse impulso inquestionável de gritar "nunca mais negros e indígenas ficarão desamparados". É necessário lembrar que este foi um filme finalizado nos estertores do governo genocida de Bolsonaro, ele possui o desespero que foi ser indígena (e brasileiro) nesse contexto. Mas que fique claro, a ameaça ainda está lá, a máquina de matança está lá em pleno funcionamento, as centenas de pistas clandestinas a sequestrar as milhares e milhares de árvores mortas diariamente pelo garimpo ilegal, e que ameaçam diretamente a vida dos povos originários.

Neville registra em "Bye bye Amazônia" o lastro temporal que envolve o tema amazônico, justamente agora que discutimos o novo plano de extermínio que é o tal do "novo marco temporal". A agonia do hoje está ali retratada com veemência, mas há as performances simbólicas e surpreendentes que o diretor imprime em várias cenas, como a do "índio" sendo enterrado vivo por um garimpeiro, em um desempenho performático corajoso e destemido de Mac Suara Kadiwell, para depois ser salvo também performaticamente pelo ator Thiago Justino. A morte é física e espiritual, é o assassinato pela malária e outras doenças brancas, são o abandono das mais de 500 crianças yanomamis morrendo esquálidas pelo desamparo assassino vindo de órgãos oficiais, de uma FUNAI completamente inoperante durante 4 anos consecutivos de desgoverno. "Bye bye Amazônia" é um filme que nos cala para que possamos ouvir as vozes que mais importam, a dos próprios povos originários: "isola e mata o isolado". E essa é a emergência que o filme nos traz, a da solidão do isolado, a da performance de Mac Suara Kadiwell pelas ruas do Centro da cidade do Rio de Janeiro, outra solidão terrivelmente anunciada pelo filme. 


Como lembra Ana Silva Kariri, uma arte-educadora fantástica, "não somos arquivos de museus. Não podemos mais ser silenciados pela internet, pelo assassinato digital". Sim, esse é um depoimento profundo que denuncia a ausência dos povos originários no censo, tão agressivo quanto as aldeias saqueadas, as mulheres estupradas e crianças mortas, em séculos, diga-se de passagem. Em um dos momentos mais emocionantes do filme, vemos as crianças perguntarem, com sua pureza habitual, como será o mundo sem as árvores, a vida dos pássaros sem as árvores, para onde eles vão? Como parar a ação de mais de 30 mil garimpeiros ilegais e assassinos nas terras yanomamis? Outro momento sublime do filme está em uma imagem do ator negro Thiago Justino vestindo uma linda bata indígena ou pendurando na parede quadros com lindos traços pictóricos dos povos originários. É a arte de Neville evocando uma outra arte como esperança da beleza frente ao genocídio por vezes e vezes tão anunciado. São imagens potentes, amparadas pela fotografia e câmera crua de Julianne Chaves, que muitas vezes segura literalmente nas mãos cada registro performático dos atores. Sem esquecer também da montagem assinada por ela que permite a fluência narrativa, que faz os planos conversarem harmonicamente entre si.    

Há ainda em "Bye bye Amazônia" uma ideia fantástica resgatada por Neville de integração dos povos oprimidos brasileiros, dos indígenas e dos pretos, juntos reconstruindo um país a partir dos escombros, ambos se apoiando e realizando uma espécie de redescoberta brasileira, um grito poderoso dos historicamente excluídos, a calar os opressores brancos, capitalistas, os ambiciosos e destruidores da cultura e da nossa alma. Como bem traduziu Luana Pessanha, "a carne do índio e do negro são as carnes mais baratas do mercado!" Uma das cenas mais tocantes (dentre várias e várias) é a do Thiago Justino e Mac Suara Kadiwell pintando um o rosto do outro, tudo filmado em close, em uma integração encantadora, em uma mise-en-scène ritualística daquelas peles se completando e se somando aos nossos olhos que fitam tudo, maravilhados, cena que termina com o indígena pondo o cocar na cabeça do homem negro, em um simbolismo fantástico e inspirador. E o filme está repleto desses momentos simbólicos e performáticos, em que a arte pode tudo, pode expressar a luta, a indignação e reivindicar a beleza poética.

Ao final, ficamos com uma imagem embaçada, embotada pelas lágrimas que escorrem pelos rostos de todos presentes no cinema, uma denúncia frontal, poética, sanguinária, performática, uma suíte agônica de um país em busca de si mesmo, que se recusa ao espelho em nome de uma ambição que exterminará a própria humanidade. Como disse a voz exuberante e sintética da atriz, dançarina e diretora Patrícia Niedermeier ao final do debate: "'Bye bye Amazônia' é uma ópera do apocalipse". Depois disso o melhor seria ninguém mais pronunciar palavras, apenas calar e refletir. E agradecer a Neville D'Almeida, pela coragem de nos mostrar um espelho ao mesmo tempo cruel e lúdico de nossa realidade.

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