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MANTÍCORA (2022) Dir. Carlos Vermut


A monstruosidade mora entre a imaginação e a vida cotidiana?

Texto de Marco Fialho

Depois do ótimo, enigmático e surpreendente "A garota de fogo", o diretor espanhol Carlos Vermut, vem de "Mantícora", uma obra bem mais enigmática do que a anterior, embora sem a contundência dela. O diretor nos conta uma história em que o imaginário prevalece, pois o protagonista Julian (Nacho Sánchez) trabalha como criador de criaturas monstruosas para videogames. Tudo ainda gira em torno da relação desse personagem com outros dois: um menino vizinho, apaixonado por plantas e piano, em especial depois de Julian o salvar de um princípio de incêndio e a jovem Diana (Zoe Stein) que cuida de um pai enfermo. 

Pouco sabemos durante o filme sobre as ações dos personagens. Vermut mantem tudo sob a sombra do mistério, do início ao fim da trama, mas sempre nos instigando à imaginação e a conjecturas. A relação de Julian e Diana é eivada pela incerteza. Ele desenvolve uma síndrome de ansiedade, enquanto ela sente um vazio após a morte do pai de quem cuidava abnegadamente. O título "Mantícora" faz referência a uma estranha criatura da mitologia persa metade homem e tigre, isto é, o tema da monstruosidade e da perversidade permeiam inclemente o filme. 


Em paralelo à história de amor entre Diana e Julian tem uma conversa enigmática entre Julian e o menino, em que este último confessa que queria ser jardineiro porque ama demais as plantas. Já Julian, confessa que sonhava ser um tigre. O dado curioso aqui é o fato de que o desejo do menino é concretizável, enquanto o de Julian, não. Julian, cena a cena, vai se transformando, se não em um monstro explicitamente, pelo menos socialmente, já que a empresa dele descobre desenhos estranhos dele do menino. Vermut não revela o que são esses desenhos, mas isso é o suficiente para abalar sua relação com Diana. 

O que mais o filme de Vermut nos entrega são as perguntas, nunca respostas prontas ou claras. Assim, o diretor nos convida a participar com nossas concepções de mundo e vida. Tudo beira o indeterminado e cheira a mistério. Tem um momento em que Diana diz a Julian que morrer não é fácil e Vermut nos mostrará que essa sentença é mais do que verdadeira. Em um momento crucial, Julian visita o menino que está sozinho em seu apartamento. Esse é o instante em que o espectador chega mais perto da possível monstruosidade de Julian, mas novamente Carlos Vermut envereda pela incerteza e foge das saídas mais fáceis. Que a monstruosidade passeia pelo mundo nós sabemos, assim como temos ciência de que ele passeia pelo imaginário contemporâneo. O viés que Vermut nos conclama é o de pensar esses mundos da imaginação e da vida como inerentes ao nosso cotidiano. Sim, vivemos nos limiares de um mundo incerto, um mundo onde o que sonhamos e vivemos se misturam e nos bagunçam como seres sociais que somos.                                                  

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