Pular para o conteúdo principal

CLOSE (2022) Dir. Lukas Dhont


Silêncios reveladores

Texto de Marco Fialho

"Close" esbanja sensibilidade ao tratar temas socialmente espinhosos, como a das relações amorosas e sexuais na adolescência, do suicídio, do bullying, da culpa e da busca desesperada pelo perdão, mesmo quando este sequer seja necessário de ser pedido. 

O diretor Lukas Dhont acerta ao escolher narrar a história de Leo (Eden Dambrine, que ator!!) e Remi (Gustav De Waele) pelo olhar carinhoso de Leo. As interpretações delicadas são fundamentais para o êxito deste filme, assim como a direção de Dhont sempre atenta e respeitosa com o tempo de cada personagem.

Em algumas cenas o silêncio rouba a cena e garante a afetividade dos sentimentos. Se do ponto de vista cinematográfico o filme é simples, sem floreios e grandes impactos, do ponto de vista narrativo há uma fluência a nos cativar em uma história densa e perpassada por um rigoroso senso de observação. Cada olhar dos atores dizem toneladas de coisas e olha que esses olhares abundam. 


De certa forma "Close" é o percurso do olhar de cada um dos personagens, que chegam a tirar o fôlego de quem assiste. Há um divisor de águas no filme quando os meninos Leo e Remi ingressam no ensino médio e os colegas ficam perguntando se eles são um casal. Esse bullying, típico das escolas, mostra o quanto é difícil falar socialmente de sentimentos mais íntimos, o que faz Leo racionalizar mais as suas atitudes em relação a Remi. 

Destaque ainda para a atriz Émilie Dequenne que interpreta lindamente Sophie, uma mãe que não desiste de amar mesmo após viver uma tragédia sem precedentes para uma mulher. A longa sequência final é registrada por uma câmera em busca de captar sentimentos perdidos, há nela uma ânsia que é de cortar o coração. 

Lukas Dhont economiza nos diálogos, mas não nos silêncios reveladores, deixando que os personagens aflorem angústias que tomam a tela por completo. Um trabalho raro de direção e mise-en-scène do cinema contemporâneo.  

Comentários

  1. Um filme impecável! Eu fiquei de cara em ver quanta fala tinha naqueles silêncios. Adorei a análise.

    ResponderExcluir
  2. Paulinho Assumpcao- Muito boa a tua crítica, Marco. Eu achei interessante também no filme um aspecto que eu percebo bastante entre os meus alunos. Eles aceitam numa boa a homossexualidade dos colegas, desde que não pensem que eles também sejam homossexuais. Ou seja, apesar de toda aceitação atual, a homossexualidade ainda é vista como algo negativo.

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...