Pular para o conteúdo principal

TUDO EM TODO LUGAR AO MESMO TEMPO (2022) Dir. Daniel Kwan e Daniel Scheinert


A turbulência do cotidiano contemporâneo ou a realidade do metaverso?

Texto de Marco Fialho

"Tudo em todo o lugar ao mesmo tempo", dirigido pela dupla Daniel Kwan e Daniel Scheinert, um dos favoritos ao Oscar 2023, é um filme profundamente gráfico e expositivo. Tudo o que ele quer dizer está quase o tempo todo na maneira como os diretores pensaram a sua construção imagética. E isso quer dizer o quanto ele se impõe a fórceps ao espectador, o filme nos é literalmente empurrado goela abaixo. Mas se você consegue sobreviver à velocidade dele, a sua avalanche, lá pela terceira parte tudo vai clareando e o resultado disso é você enxergar o quanto tudo nele é bem óbvio, nada complexo como se imaginava a princípio. 

Reconheço em "Tudo em todo o lugar..." uma ideia bem orquestrada (essa é a palavra chave) encaixada em um roteiro mirabolante, mas inteligente, embora ao final fica-se com uma pergunta realmente válida: será que tudo isso nos leva a algum lugar ou a uma reflexão mais profunda? Ou o filme nada mais é do que um chiste com um orçamento elevado? Verdade que de início, toda aquela "realidade" do multiverso incomoda, confunde, embaralha a cabeça e causa até uma náusea, mas logo a gente vai compreendendo que o filme quer apenas construir uma visão, não sei se exatamente crítica (e esse foi o meu maior problema com ele) da sociedade contemporânea, em que temos que lidar com a loucura de conviver de maneira atribulada com o mundo tecnológico, que nos obrigou conciliar aparelhos digitais com a vida familiar, causando turbulências e o caos no cotidiano das pessoas. 


Enquanto a personagem Evelyn (interpretada pela excelente Michelle Yeoh) está resolvendo um problema na receita federal relativo à lavanderia na qual é proprietária, coexistem ali no mesmo momento vários conflitos em sua cabeça, em especial a tensão permanente com a filha, o pedido de divórcio do marido e a possível esclerose do pai. Após apresentar a história a partir do cotidiano da lavanderia, o filme se divide em três partes, que juntas formam o nome do filme (parte 1 - tudo, parte 2 - em todo o lugar e parte 3 - ao mesmo tempo, justamente o caos que se quer tratar que também está no título). A obra mexe muito com as mudanças nas relações humanas na contemporaneidade, o quanto a noção de tempo e espaço se transformaram e impingiram a nós assumir muitas tarefas profissionais e pessoais, às vezes as misturando de maneira avassaladora. Com o celular, nos transportamos para espaços nos quais não estamos e para tempos em que também não é somente o presente. Há enfim, uma presentificação da vida, uma espécie de tudo ao mesmo tempo agora, um certo vivente império do caos cujas mãos de salsicha fazem até sentido (mesmo que pareça que não). 

"Tudo em todo lugar ao mesmo tempo" brinca com esse mundo caótico que inventamos para vivermos, ou que somos obrigados a viver, uma espécie de alegoria dos caos urbano e tecnológico. Durante a projeção sentimos algumas referências a outros filmes, como "Matrix" na existência de um mundo paralelo e tecnológico, embora "Tudo em todo lugar..." soe bem mais mambembe ou caricatural, mas não deixa de ser um filho bastardo do mega sucesso de 1999; outra referência é "2001, uma odisseia no espaço", do Kubrick, inclusive numa espécie de reedição do monolito, agora numa versão menos filosófica e pra lá de cômica, com pedras próximas a um abismo a discutir uma DR; e a Wong Kar-Wai e seu "Amor à flor da pele", com um casal discutindo a relação com direito a figurinos, óculos escuros, terno e luz esverdeada dando o tom da sequência em um dos universos paralelos.  


"Tudo em todo lugar..." pode ser analisado como uma grande brincadeira cinematográfica, debochada, alegre, caótica e autorreferenciada no próprio universo do cinema (que está lá também como um dos universos possíveis) e não deixa de ser um pouco decepcionante quando descobrimos depois de tanto barulho (literalmente) e confusão metaverso, que tudo não passava de um conflito familiar, em especial entre mãe e filha (mas não só) e que a personagem Evelyn sintetiza muito o filme quando diz "o universo é muito maior do que você imagina". É uma ideia banal, mas afinal o que é esse filme a não ser isso mesmo. É a cara do Oscar, não?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...