Pular para o conteúdo principal

ME BUSCO LONGE (2022) Dir. Diego Lublinsky


A resistência mora longe 

Texto de Marco Fialho

Desde "Elena" (2012), de Petra Costa, que virou uma febre incontida se fazer filmes a partir de sua própria família. Mais de 10 anos depois nos chega "Me Busco Longe", de Diego Lublinsky. Tal como em "Elena", esse documentário também possui a narrativa em off de alguém (o próprio diretor Diego Lublinsky) tentando entender o mundo a partir dos seus, aqui no caso, o objeto de estudo é Graziele, a cunhada do diretor, lésbica que vai morar na Argentina com medo do que possa ocorrer com ela depois da eleição do governo conservador e homofóbico de Bolsonaro. 

As idas e vindas entre Brasil e Argentina dessa jovem são documentadas pelo diretor, numa abordagem ora muito muito próxima ora muito distante, ainda mais quando chega a pandemia do Coronavírus em 2020. O filme é interessante por mostrar e tratar muito fisicamente a nossa relação em um país dominado pela perseguição ideológica e comportamental. De alguma forma, todos nós fomos Graziele, todos nos sentimos estrangeiros em nosso país e a pandemia apenas veio reafirmar o imenso incômodo que foi viver no Brasil dominado por um governo neofascista. A jovem Graziele escolheu o aeroporto, mas a maioria de nós precisou ficar exilado no próprio país, isolado em casa, com medo do vírus e do governo que parecia querer propagá-lo ao invés de combatê-lo. Não foi fácil ser jovem nos últimos 4 anos no Brasil, mas pergunto: foi fácil ser alguém, independente da idade? 


Mas Diego consegue falar além, registrar e sentir o quanto está documentando mais do que uma vida, uma vida que está inserida em formas de viver a cultura e a sociedade. Todos nós estamos sempre nesse conflito entre o que queremos ser e o que podemos ser, o quanto somos limitados socialmente e o quanto esgarçamos as cordas do que é estabelecido tanto pelo convívio familiar quanto pelo social. E ainda entre o que planejamos fazer e como a vida realmente acontece, alheio as nossas forças (a separação da namorada está inserida aí). "Me busco longe" se constrói conscientemente nesse espaço, literalmente nas fronteiras, porque o filme é sobre Graziele, mas também sobre Diego, que tenta caminhar depois da perda de seu irmão, que tem a mulher e uma filha pequena para lhe dar forças. O filme ainda documenta a relação das irmãs, seus conflitos, afetos tumultuados, diálogos enviesados e de aproximação. 

"Me busco longe" ainda captura o conservadorismo enraizado na cultura brasileira, a não aceitação camuflada da família acerca da orientação sexual de Graziele, flagrada em detalhes, olhares e depoimentos individuais como a da avó, da irmã que ficou em casa e até do pai, pela ausência mais do que anunciada. Lá no início, tem uma imagem que creio sintetizar muito "Me busco longe": a de um bolo metade confeitado com o verde-amarelo brasileiro e a outra metade com as cores azul e branco argentino. Mais do que a divisão entre países, essa imagem mostra o quanto dividido estava o país, o quanto esse país nos dividiu com a intolerância da religião pentecostal e fascista de um governo que se alimentou com a histórica desigualdade social, que investiu desde a campanha na divisão e na perseguição do diferente para poder governar. Felizmente Graziele foi uma das resistentes e sobreviventes desse inferno que aqui infelizmente se instalou e como é bom poder ter o registro disso tudo vindo de um olhar estrangeiro.

Comentários

  1. Como é bom ter gente pensando os filmes com o cérebro e o coração ao mesmo tempo.

    ResponderExcluir
  2. Que bacana pensar o texto sob esse viés. Obrigado querido!

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Deixe seu comentário. Quero saber o que você achou do meu texto. Obrigado!

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...