Pular para o conteúdo principal

UM CASAL: SOPHIA E TOLSTÓI (2022) Dir. Frederick Wiseman



"Un Couple": um documentário sobre uma voz, a voz de Sophia.

"Um Casal: Sophia e Tolstói" poderia apenas ser mais um filme de ficção, mas não o é, justamente porque seu diretor é Frederick Wiseman, um dos maiores documentaristas vivos, apesar dos seus 92 anos, continua na ativa mantendo uma profusa e profícua produção. Mas será que o filme está assim tão afastado do documentário? Me parece que Wiseman toma esse projeto como uma espécie de experimento documental, basta pensar que o diário de Sophia torna-se a única fonte documental utilizada por ele, mas não é só isso, a maneira como ele trabalha esse material também muito diz sobre o filme. Esse é sobretudo um filme de princípios, tanto pelo tema da opressão da mulher que ele enfoca quanto no rígido formato cinematográfico escolhido. 

Apesar de ter volteado o que eu quero dizer, verdadeiramente não o disse. "Um Casal: Sophia e Tolstói" é um documentário sobre a voz, a voz de Sophia. Cada palavra está colocada de tal forma que não há espaço para se duvidar que aquela não é a voz de Sophia (interpretada sem maiores floreios por uma sóbria Nathalie Boutefeu), as palavras que saltam das cartas dela são envoltas de beleza dessa existência, regado de uma força poética irrefreável pela grandeza que emerge das imagens de um filme-monólogo, de uma mulher a nos confessar a dureza de sua vida, da entrega ao marido que era simplesmente um dos ícones da literatura mundial. Wiseman reduz aqui Tolstói apenas a um homem em seu cotidiano, nos lembra que por trás do ícone literário existia uma figura humana, o que o fragiliza sobremaneira, pois afinal isso revela que ele apesar de genial era um homem do final do século XIX. 

Tem um fato político intrínseco e importante na própria narrativa de Wiseman, quando em várias cenas ele quebra a quarta parede e coloca Sophia a direcionar cada palavra ao público, como se quisesse assim falar diretamente às mulheres, pois afinal, hoje sabemos que por mais avanços que tivemos ainda há muitas mulheres também oprimidas pelos seus maridos, e no caso de Sophia, uma dedicação total, na casa e na revisão dos textos de Tolstói, o que não é nada pouco. Wiseman nos brinda com uma bela homenagem a essa mulher, restaurando sua voz, seu pensamento e garra de viver. Adotar esse ponto de vista como único é soberbo, é realçar a potência da personagem e isso é muito. Desapagar a imagem de Sophia é um dos pontos altos desse "Um Casal: Sophia e Tolstói". No título original, "Un couple" há uma postura clara de Wiseman em amarrar o trabalho dessa mulher ao marido, não cita Tolstói como no título brasileiro, mas deixa evidente o quanto o tema do casal é o principal e que a presença solitária de Sophia em cena traduz muito do sentimento que há nos diários dela.

Um dos elementos mais potentes da proposta dramatúrgica de Wiseman está em como ele pensa a camada sonora do filme, que extrai da narrativa qualquer nuance de leitura melodramática da história. Prefere ofertar desde o primeiro plano ao espectador o som direto vindo da própria natureza, como se assim nos deixasse resgatar a atmosfera da vida no interior, habitat em que viveu Sophia com Tolstói. É curioso como Wiseman, conhecido pelo documentário observacional, arrisca-se aqui numa ficção experimental (ou seria um documentário experimental? Na verdade, pouco isso importa), onde troca a câmera estática da observação por uma espécie de reconstituição textual a documentar sobretudo as palavras. 

Nota-se que se o som do filme emerge de uma aparente pasmaceira da natureza, enquanto os fatos narrados de maneira monocórdica se encaixam como luva na proposta wisemaniana de experimentar os limites entre palavra e imagem. Tudo pode até soar como um artifício teatral, mas entendo que isso é simplificar a ousadia estética de Wiseman quando procuramos entender "Un Couple" mais amplamente na filmografia do diretor. Wiseman deve ter ficado impressionando e encantado com o diário de Sophia e pensou em como filmá-lo sem agredir sobremaneira a sua forma de pensar um documentário. Não casualmente, "Un Couple" ambiciona documentar a palavra e aqui não é a do ícone Tolstói, mas sim a de sua esposa, que se mostra não só malabarista da vida como também talentosa com as palavras. Tolstói aqui adentra tão somente pela voz dela, de mais, resta a ele o único momento como coadjuvante na vida, e podemos dizer que foi Wiseman o responsável por isso, por ressignificar a vida comum de Leon e Sophia.



 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

CLOSE-UP (1990) Dir. Abbas Kiarostami

Texto por Marco Fialho "A arte é um sentimento que se experimenta, que o artista desenvolve nele para compartilhar com os outros". Frase que o personagem Sabzian atribui a Leon Tolstói Estudar o cinema de Abbas Kiarostami é mergulhar no imaginário do cinema. Um dos ícones do cinema iraniano dos anos 1980 e 1990, o diretor realizou obras cruciais para o pensamento cinematográfico contemporâneo. Obras como Gosto de Cereja (1997), Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), Através das Oliveiras (1994), A Vida e Nada Mais (1992), e outras já produzidas nos século XX1, como Dez (2002), Cópia Fiel (2010) e Um Alguém Apaixonado (2012), todas fundamentais e merecedoras de serem estudadas, não só individualmente, mas também em conjunto para melhor se compreender o pensamento original desse cineasta iraniano, que junto com tantos outros seus contemporâneos, como Mohsen Makhmalbaf, Jafar Panahi e Majid Majidi, formaram a base do que hoje chamamos de cinema iraniano. Mas nesse texto vou come...

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

RETROSPECTIVA VIVIAN OSTROVSKY

Texto por Carmela Fialho Retrospectiva Vivian Ostrovsky "Para mim, cinema experimental significa ter liberdade total - liberdade de duração, de tema, de forma.(...) fazer o que você quer sem se submeter às regras comerciais. São outros valores, não é tanto sobre ser longe da indústria, mas sobre liberdade de criação. De resto, é frustrante ver que hoje o cinema está cada vez mais padronizado, com poucas surpresas".  Vivian Ostrovsky em entrevista inédita a Fernanda Pessoa, extraído do Catálogo do 31º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade 2026. Na retrospectiva Vivian Ostrovsky, assistimos ao programa 2, denominado corpos em trânsito, com os filmes Movie ( V.O.)  (1982); Idas e Vindas   (1984); Copacabana Beach  (1983); Domínio Público  (1996); e U.S.S.A (1985). O que unifica os cinco curtas são as filmagens de corpos humanos em diferentes atividades do cotidiano em várias regiões do planeta, como Estados Unidos, França, Brasil e a antiga União ...