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A COLECIONADORA (1967) Direção de Eric Rohmer

Sinopse:
Em Saint-Tropez, dois amigos, um pretenso colecionador de arte e um artista, encontram Haydée, uma rapariga bela e livre, conhecida por "colecionar" amantes de passagem.

Rohmer: um cronista perplexo com o feminismo

Texto de Marco Fialho

Em um primeiro momento pode parecer no mínimo estranho que iniciarei uma aproximação analítica entre a crítica de cinema e a crônica por um filme que é autodenominado pelo seu criador de conto. Cabe então uma questão de ordem de que as fronteiras aqui são mesmo o eterno problema epistemológico dessa aproximação. O conto é uma prosa curta, assim como a crônica também o é. Mas digamos que o diferencial da crônica esteja na atualidade de uma ideia, sendo ela referenciada no passado ou no presente. Etimologicamente, crônica vem do grego, khrónos (relacionado ao tempo), o que dialoga com o que foi definido acima. O tempo também é um componente fundamental do cinema, lembrando que para Tarkovski o registro do tempo está na origem do próprio cinema. Na crônica esse registro do tempo está intrinsecamente entrelaçado pelo sujeito que descreve o que observou ou viveu. Portanto, o ponto de vista é aqui um ponto relevante, saber como um determinado olhar está construindo uma visão de mundo.    

Sempre que imaginei relacionar o cinema com a ideia de crônica, não sei porque o primeiro nome que me veio sempre a mente foi o de Eric Rohmer. Talvez pelo fato de o diretor, egresso do grupo de críticos do cinema francês da década de 1950 conhecido como jovens turcos, se esforçar permanentemente em tentar elaborar indagações sobre as grandes transformações ocorridas nos costumes na sociedade francesa pós-1945. Suas obras se defrontam com comportamentos que chocam uma parte da sociedade que ainda não havia percebido como o acontecimento de duas guerras mundiais consecutivas havia mudado a maneira de viver das pessoas e, por consequência, a ideia de moral burguesa. E o que mais me arrebata em Rohmer é a perplexidade que o seu olhar de diretor encara os novos hábitos sociais, o que faz emanar um retumbante frescor de muitas de suas obras. Seus seis contos morais ("A padeira do bairro", 1963; "A carreira de Suzanne", 1963; "Minha noite com ela", 1969; "A colecionadora", 1967; "O joelho de Claire", 1970; e "Amor à tarde", 1972) falam das transformações na relação entre homens e mulheres nas décadas de 1960 e 1970, e de como o casamento e o sexo foram impactados com o aumento do crescimento urbano nas cidades e diante da luta das mulheres nas relações familiares, amorosas e de trabalho. 


"A colecionadora" (1967) é o primeiro filme em cores de Rohmer e onde o seu estilo único desponta com mais nitidez. Um dos traços artísticos que mais se identifica uma obra de Rohmer é a sua mise-en-scène. O diretor escolhe sempre com muito cuidado tanto as locações externas quanto as internas. A relação dos personagens com a natureza ou com o mobiliário (incluindo aí os objetos de cena) são sempre partes fundamentais dos filmes e em "A colecionadora" isso não é só visível, é igualmente gritante. A câmera está sempre a serviço dessa relação entre os personagens e o que está em cena. Nas cenas internas há um permanente conflito visual entre a modernidade do comportamento e o mobiliário arcaico dos espaços. O sítio onde toda a ação transcorre torna-se um espaço em suspenso, afinal, o verdadeiro dono está ausente o tempo inteiro da trama, o que faz do sítio um lugar sem amarras, onde qualquer relação familiar existe para interditar os comportamentos, são apenas homens e uma única mulher a conviver ali quase que sem regras, ou podendo improvisar uma temporada no calor das relações.    

Sim, Rohmer tem consciência, típica de um cronista, que está a registrar um descompasso, de que embora a materialidade de um mundo ainda persista, ele não contempla mais espiritualmente a vida do presente. É um conflito de temporalidades que Rohmer nos proporciona, e há de alguma forma, um certo lirismo dele com esse passado, um resquício de que perdemos algo que era valoroso. O presente parece o incomodar, mas a curiosidade inata de cronista o faz avançar na narrativa. A personagem da jovem Haydée (Haydée Politoff) mais do que uma colecionadora de homens é uma demolidora dos velhos costumes. Ela aniquila homens de várias gerações, é indomável. Rohmer filma como se em algum momento alguém fosse dobrá-la ou subjugá-la. Se há uma certeza é que as mulheres jamais retrocederão depois que Haydée dá o passo à frente. Essa é a crônica mais fulcral, aquela que percebe não a ferida, mas que documenta o dedo a perfurando bem fundo. O fato de Rohmer chamar o filme de um conto moral não retira o enorme peso documental que o embasa. É uma espécie de "trago boas novas", embora o seu registro seja mais para amargo do que para doce. Há um estupefato dele como cronista em construir essa nova mulher, essa "novinha" que passo a passo aniquila o passado moral da sociedade francesa. Ela é natureza em estado bruto, uma vida selvagem a adentrar nas casas burguesas para demoli-las, como se dissesse com atitudes: "eu não caibo nesse mundo que vocês (homens) construíram". 


Por isso "A colecionadora" é também sobre corpos. Sobre a relação deles com o tempo. As artimanhas de cortejo dos homens soam antiquadas aos olhos de Haydée, são como roupas que não cabem mais de tão apertadas. A temporalidade dos corpos entram em desacordo e litígio com a materialidade das casas. O tempo as atravessa de maneiras diversas, é como se o corpo da jovem Haydée reagisse à opressão que os espaços impuseram durante anos às mulheres, há décadas e até séculos. É muito tempo para se desmoronar de uma vez só. As edificações imponentes que aviltavam quem os adentravam não enganam mais, não conseguem impor a supremacia apenas pela sua constituição material imponente. E a libertação precisaria vir justamente de onde veio, de quem foi historicamente reprimida e subjugada. Porém, há um detalhe a ser refletido: o filme mostra uma mulher jovem a transar com diversos homens, mas não sabemos se essas relações lhe dão prazer ou não. O que parece chocar ao cronista Rohmer é a atitude em si e não o que resulta do ato em si. A inteira ocultação de uma manifestação qualquer de prazer é no mínimo estranho, pois ele não vem nem sob a forma gráfica nem pela verbalização. Esse aspecto nos é interditado por completo. Essa despotencialização sexual torna-se central e traz um viés político com ela. Embora revele que o sexo como fonte de prazer apenas masculino não interessa mais à mulher, soa apenas como uma espécie de vingança histórica feminina e não como uma reparação que ponha os pingos nos is. O jogo exposto por Rohmer é o seguinte: Haydée está no comando, aceita o jogo masculino para corroborar o fim desse poder (pelo menos na relação de Haydée com os homens). Todos a possuem, mas ninguém a tem de verdade, ela desmascara o jogo de poder um a um. Rohmer filma isso tudo com um misto de encanto e horror, embora reconheça a força irrefreável de Haydée, lhe oculta o prazer, ficando apenas a camada de vingança de uma mulher a reproduzir o mesmo que os homens sempre fizeram com as mulheres.  

"A colecionadora" é o quarto conto da série (que não obedece a ordem de lançamento já que "Minha noite com ela", filmado antes, foi lançado depois de "A colecionadora", em 1969), cujas histórias são bem diferentes entre si, embora tenham o tema da moralidade como único elemento a entrelaçá-las. Em todos os contos, Rohmer constrói figuras masculinas majoritariamente machistas e prepotentes, perplexos com uma nova mulher, mas ainda querendo viver sob a sombra de uma moral ultrapassada. Nesse quarto filme faz o mesmo, embora surpreenda bastante ao formatar Haydée com um vigor impressionante. Logo na abertura do filme duas mulheres conversam sobre como elas veem a beleza masculina. Uma delas deixa claro que sequer olha para homens que considera feios. Rohmer realiza essa sequência como uma inversão de valores nada costumeira. Aqui, as mulheres dizem o que querem dos homens e quais os critérios que adotam para sair com eles. Mais uma vez o lado cronista de Rohmer se sobressai ao registrar um começo de transformação no comportamento feminino. Mesmo que Rohmer não nomeie, é o feminismo arrombando pela porta da frente, não mais pelos fundos. Por mais que a sequência mostre um certo assombro (afinal é um homem a filmar, não uma mulher) do diretor frente aos fatos narrados, que parece dizer nas entrelinhas: "olha onde essas mulheres chegaram" e "onde vai dar essa história?". O caráter descritivo típico da crônica de costumes chama a atenção mais do que tudo. 

É o cinema a documentar pela ficção um momento social significativo, a do assombro do homem e a sua impotência diante uma mulher que não se deixa dominar. Claro que Rohmer realiza cada cena preservando uma poiesis que inclusive é bem familiar a sua mise-en-scène, com diálogos mais para literários do que para novelescos, o que faz ecoar permanentemente uma leveza e uma beleza inconteste da verve que lhe é inerente. Mas durante muito tempo a poesia justamente tão sublinhada do diretor pela crítica possa ter escamoteado a faceta cronista que hoje me vislumbra como a mais visível. Rohmer se transforma assim em um cronista de uma França em franca transformação moral de seus costumes burgueses e não há como negar que as mulheres são as grandes protagonistas desse processo. E "A colecionadora" é um belo exemplo de como o cinema pode dizer mais sobre uma época do que supunha a princípio o próprio realizador. É o tempo da crônica a rondar o tempo do cinema.  



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