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NEY À FLOR DA PELE (2020) Direção Felipe Nepomuceno


"Eu nasci e vou morrer transgressor" Ney Matogrosso

Texto de Marco Fialho

"Ney à flor da pele", documentário dirigido por Felipe Nepomuceno, almeja alcançar a alma do cantor Ney Matogrosso por meio da junção de clipes musicais mesclados por alguns depoimentos de arquivo furtivos, ao longo de sua pouco mais de uma hora de duração. No todo, o filme se mostra irregular, já que o diretor apenas propõe uma montagem que costura as imagens de arquivo, tanto as musicais quanto os depoimentos com os quais trabalha. Não foi coletado nenhum depoimento do cantor especialmente para o filme.

O filme não se propõe em explicar momentos ou fases da carreira de Ney e isso fica claro quando o diretor Felipe Nepomuceno não tenta explicar a saída do cantor da famosa banda "Secos & Molhados", apenas somos informados por uma gravação do Cid Moreira em um programa jornalístico. Uma decisão ousada do diretor é a de mostrar as músicas inteiras, ao invés dos habituais trechos que os documentários de música normalmente fazem, ainda mais que Felipe extrai esses números de materiais já existentes, ora de shows ora de videoclipes. Esse método deve agradar em especial aos fãs, que verão Ney Matogrosso em ação em mais da metade do filme. Provavelmente, o diretor deve ter tido problemas na pesquisa ou até mesmo em realizar filmagens presenciais durante a pandemia, tendo que trabalhar apenas com os materiais que conseguiu obter.  

"Ney à flor da pele" centra-se muito no viés transgressor de Ney, nas dificuldades encontradas pelo cantor em impor um trabalho que tinha o corpo como elemento fundamental na sua mise-en-scène artística. Mesmo que essa camada possa parecer óbvia de ser abordada, por ser a mais visível, ela não pode ser evitada, sob pena de negar o próprio personagem. Inclusive essa é a melhor parte do documentário, conseguir pinçar nos arquivos declarações que sustentam a importância de Ney para a cena musical brasileira, em especial no que tange à expressividade do espetáculo.

Em alguns momentos, a montagem de "Ney à flor da pele" apresenta desníveis que chamam a atenção. Há um início com imagens de arquivo que mostram a repressão do governo ditatorial à oposição que são logo seguidas por um videoclipe onde Ney canta "Ave Maria". Creio que o diretor quis contrastar a  contundência da violência de uma com a indulgência da outra, mas o resultado ficou estranho, porque naquela época a resposta de Ney estava mais para "Secos & Molhados" do que para a canção de cunho católica do videoclipe. Isto é, a resposta ali soou equivalente, tão incisiva quanto a da força bruta da ditadura. Outro momento de montagem estranha é quando o diretor emenda o videoclipe de Rosa de Hiroshima/Imagine com uma música do Frejat, assim a seco. Essa sucessão consecutiva de dois videoclipes inteiros também provoca um abalo no ritmo do filme. 

Um dos momentos mais incríveis é a última sequência do filme, quando Ney Matogrosso canta ao vivo no Parque Laje (RJ), sem palco e arquibancada, com o público cercando ele e alguns pelados dentro da famosa piscina transgressora do lugar. Essa imagem, muito diz sobre Ney e papel cultural do seu trabalho. Além de provocadora ao extremo, essa sequência sintetiza o poder artístico de Ney, o quanto que um simples cantar vagabundo pode influenciar e transformar as pessoas.           

          

     

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