Pular para o conteúdo principal

EM BUSCA DE CARLOS ZÉFIRO OU POR TANTO LEITE DERRAMADO (2020) Direção de Silvio Tendler


Pornográficas são as guerras... ou... (o sexo sem parênteses)

Texto de Marco Fialho

"Em busca de Carlos Zéfiro", novo documentário de Silvio Tendler, conforme o próprio título já anuncia, tem um envolvimento pessoal surpreendente. Não é só um filme que busca algo no passado, mas que sobretudo busca também algo no passado do próprio diretor (evidente, o diretor foi leitor de Zéfiro!). Esse talvez seja um diferencial desse para outros documentários de Tendler, uma visita ao passado oculto não só dele, como de vários brasileiros, que na surdina usufruíram (literalmente) dos desenhos e histórias sacanas (os famosos catecismos de Zéfiro), escritas igualmente sob o manto do proibido (as tais das indesejáveis bolas pretas), já que Zéfiro escreveu e desenhou sempre escondido desde a infância, assim como foi comercializado da mesma maneira, na clandestinidade. 

Antes do documentário começar assistimos a um depoimento do diretor em relação à proibição do filme aqui no Brasil, onde Tendler dá uma aula sobre erotismo e a perseguição que sempre envolveu a questão do prazer na história do mundo. Tendler deixa claro a proposta de mostrar tudo como Zéfiro contou, sem as censuras (as inconvenientes bolas pretas) que tanto marcaram a carreira do desenhista e escritor. A versão que assisti é a do diretor, o que indica (tomara que não!) que pode haver uma versão mais "comportada" a ser mostrada no cinema. A verdade é que o clandestino vende mais, o que não pode ser visto é sedutor, aquela tal revista que se guarda para ver na "encolha", algo bem banal e típico na hipócrita sociedade machista patriarcal brasileira. Pode-se ver, mas não pode mostrar nem dizer ao outro que viu. 


Não casualmente, Tendler começa o filme por retratar essa sociedade dos anos 1950 e 1960, sedenta pela emancipação, mas que ao mesmo tempo não larga mão do conservadorismo mais empedernido. Se o Brasil se desenvolvia economicamente, nas entranhas ainda mantinha os costumes de fazer tudo "por debaixo dos panos" (e aqui o sexo não é o único a ser lembrado). Tendler divide o documentário por capítulos estilosamente sexuais, com direito as preliminares, a hora do vamos ver sexual até o capítulo "tirando a tarja preta", quando temos a revelação do homem Alcides Caminha por trás do artista Carlos Zéfiro, que creio ser a primeira vez que tanto ele quanto a família são revelados publicamente (mais um ponto para este trabalho impecável no que tange a pesquisa). 

"Em busca de Carlos Zéfiro" é um presente amoroso com o qual Tendler brinda o público, um documento que tira do anonimato uma figura ímpar da nossa cultura, (que surpreendentemente já foi até capa e ilustração de um disco da Marisa Monte), expondo sua arte subversivamente erótica. Claro, que vista com os olhos de hoje, onde podemos ver filmes pornôs gratuitamente e livremente no celular, Zéfiro nada possa soar ser tão perigoso assim (o que de fato nunca deveria ser mesmo), mas essa sensação de conteúdo proibido, escondido, era o charme dessas obras e aguçava ainda mais o desejo de conhecê-las. Em boa parte do filme, Tendler mostra a obra de Zéfiro preservando o formato de revista, deixando os desenhos falarem por si mesmo, mas inclui uma curiosa e instigante narração dos diálogos que acontecem entre os personagens, narrados com graça e uma dose refinada de humor por Maitê Proença, Eduardo Tornaghi e Chico Díaz. 


Que fique bem claro: falar de erotismo é sempre algo salutar e de bom tom, não o inverso disso (inclusive não cabe mais o inverso). Por o erotismo para debaixo do tapete da sala, do quarto ou leva-lo disfarçadamente para o banheiro é que deve ser visto como a nova heresia (não que isso não traga ou trouxesse uma dose de prazer extra). Proibir é que deve ser evitado, pois esse ato, historicamente, leva à hipocrisia e dela já estamos fartos, certo? 

"Em busca de Carlos Zéfiro" expõe algo de fundamental e extraordinário, que é a capacidade infinita da humanidade de imaginar, de ir além. Vale lembrar que essas imagens desenhadas (pasmem, com traços rudimentares) despertavam prazeres inconfessos, levaram gerações ao orgasmo, o que mostra também o poder de algo quando o tomamos como proibido ou censurável (o famoso ver por detrás da fechadura). Mas o que dizer quando descobrimos que os vestígios dos vetos do passado não estão assim tão mortos. Qualquer ato de proibição desse filme franco, honesto, carinhoso e tesudo de Tendler será absurdo, mais condenável do que qualquer imagem erótica que possa ser exibida. Como bem disse o diretor no preâmbulo do filme: "pornográfica são as guerras". Ponto final. Nada mais a acrescentar, apenas assinar embaixo dessa sentença que tão bem sintetiza esse tema.

Assistido no link do Festival RECINE 2021, em dia 28/09.  

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

O AGENTE SECRETO (2025) Dir. Kleber Mendonça Filho

Texto por Marco Fialho O primeiro registro que faço acerca de  O Agente Secreto é a sua engenhosidade ao construir uma Recife fabular, mergulhada na podridão do passado de um país, que teimosamente tenta se manter de pé. Talvez por isso, uma perna aparentemente a esmo contenha tanta força simbólica, como uma metáfora possível da história de exploração de um povo do qual o contexto lhe é continuamente expurgado. O cinema de gênero dá um tom fantástico ao filme, apesar que ficamos com a impressão que tudo ali possa ser tão verdadeiro quanto o é uma notícia de jornal. Fica a impressão de que a fábula toca no absurdo que chamamos de mundo real.    Kleber Mendonça Filho está pleno na direção, irretocável. É assustador como a montagem provoca o espectador com sua imprevisibilidade e nos convida a acompanhar prazerosamente cada detalhe que está dentro do quadro. De repente, estamos no condomínio Ofir em 1977, até que um corte brusco nos leva para uma sala com computadores, com d...

PECADORES (2025) Dir. Ryan Coogler

Texto por Marco Fialho e Carmela Fialho O cinema negro dos Estados Unidos vem se fortalecendo mercadologicamente como nunca. Diretores como Jordan Peele ( Corra! , Nós  e Não! Não Olhe! ), Barry Jenkins ( Moonlight e Se a Rua Beale Falasse ), Ava DuVernay ( 13ª Emenda  e Selma ) e Shaka King ( Judas e o Messias Negro ), Raoul Peck ( Eu não Sou Seu Negro ). Se falarmos mais retroativamente, encontraremos Spike Lee (com os clássicos  Faça a Coisa Certa , Malcoln X , e os atuais  Infiltrado na Klan e Destacamento Blood ), Melvin Van Peebles ( Sweet Sweetback's Baadasssss Song e Posse: A Vingança de Jesse Lee ) e a força do movimento Blaxploitation dos anos 1970, e o ineditismo de Oscar Micheaux nos anos 1920 e 1930.  O fato atual é que o cinema negro não é mais reservado a um nicho. Os diretores mais recentes mostram uma penetração cada vez mais efetiva no mercado. Pecadores , mais recente filme de Ryan Coogler ( Creed e Pantera Negra ) vem comprovar isso. ...

MOSTRA CINEBH 2023

CineBH vem aí mostrando novos diretores da América Latina Texto de Marco Fialho É a primeira vez que o CineFialho irá cobrir no modo presencial a Mostra CineBH, evento organizado pela Universo Produção. Também, por coincidência é a primeira vez que a mostra terá inserido um formato competitivo. Nessa matéria falaremos um pouco da programação da mostra, de como a curadoria coordenada pelo experiente Cleber Eduardo, montou a grade final extensa com 93 filmes a serem exibidos em 8 espaços de Belo Horizonte, em apenas 6 dias (26 de setembro a 1º de outubro). O que atraiu o CineFialho a encarar essa cobertura foi o ineditismo da grande maioria dos filmes e a oportunidade mais do rara, única mesmo, de conhecer uma produção independente realizada em países da América Latina como Chile, Colômbia, México, Peru, Paraguai, Cuba e Argentina, sem esquecer lógico do Brasil.  Lemos com atenção toda a programação ofertada e vamos para BH cientes da responsabilidade de que vamos assistir a obras di...