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MARTÍRIO (2016) Direção de Vincent Carelli, Ernesto de Carvalho e Tita

Sinopse

Uma análise da violência sofrida pelo grupo Guarani Kaiowá, uma das maiores populações indígenas do Brasil nos dias de hoje e que habita as terras do centro-oeste brasileiro, entrando constantemente em conflito com as forças de repressão e opressão organizadas pelos latifundiários, pecuaristas e fazendeiros locais, que desejam exterminar os índios e tomar as terras para si.


Genocídio secularmente anunciado


Texto de Marco Fialho


“Martírio”, do ponto de vista político e humanitário, é um dos filmes mais importantes do nosso cinema dos últimos anos. Um documento raro, minucioso e preciso sobre a questão indígena no Brasil, tendo como foco a etnia Guarani Kaiowá. Apesar de centrado em uma única etnia, localizada na região do centro-oeste brasileiro, o filme consegue abranger a questão indígena como um todo. A força do filme vem da perspectiva histórica contundente, através de uma pesquisa detalhada dos diretores. 


O filme amarra de forma eficaz presente e passado, e traça uma visão sombria para o futuro dos nossos povos originários. Os diretores fazem uma digressão se utilizando de imagens e vídeos de arquivo que mostram a trajetória de destruição dos indígenas, século a século. A cada novo contato com os homens brancos, a cada nova política de estado significa mais um massacre anunciado. 



Esse passado é realmente desolador, mostra bem o quanto as gerações foram resistindo frente à Guerra do Paraguai, às políticas intervencionistas de Rondon, assim como os da Era Vargas e dos militares a partir da década de 1960, que sempre com o discurso de desenvolvimento assolaram essa população originária. Há um decréscimo alarmante da população indígena no Brasil e não podia se esperar coisa diferente da elite brasileira, sempre competente em reafirmar seus interesses mesquinhos e egoístas.     


Mas quando os diretores tratam do presente o panorama aterrador não muda, talvez até piore. Fica evidente de que as últimas políticas públicas nada fazem em relação à proteção territorial ou cultural. Imagens de empresários da soja propondo o aniquilamento deslavado do território indígena são defendidos abertamente. Vira uma batalha entre os “produtivos” e os “improdutivos”. O que fica ao final é uma ideia de genocídio e etnocídio muito claro. O primeiro dizima os corpos da população indígena (muitas vezes quase uma etnia inteira), já o segundo a cultura e o espírito das nações indígenas.


Por tudo isso, Martírio já nasceu um clássico de nosso cinema, pois sua contundência é plena, tanto no discurso quanto nas imagens que nos brinda. Ao amarrar passado e presente os diretores parecem prever um trágico futuro, caso nada seja feito pelos indígenas.

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