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KUNG-FU MASTER! (1988) Direção Agnès Varda


Sinopse:

Em um chuvoso dia de primavera, Mary-Jane, uma mulher de quase 40 anos, se apaixona por um menino de quase 15, Julien, um colega de classe de sua filha.

Texto de Marco Fialho

O amor libertário e a felicidade 

Assistir a uma obra de Agnès Varda é sempre se surpreender. Seja no terreno do documentário, do autodocumentário, da ficção ou de alguma solução híbrida, Varda encanta. Seja na década de 1960, 70, 80, 90 e adentrando no século 21 ela nos brinda tanto pela leveza de espírito quanto pelo profundo comprometimento com o humano. Com "Kung-Fu master!" não é diferente, todas as tomadas são contagiadas e cercadas por uma delicadeza, um amor sincero e contagiante. Há um respeito e uma rara paixão declarada da diretora às personagens e atores. 

A admiração e a confiança de Varda pelo trabalho da atriz Jane Birkin é visível em cada cena. Os princípios libertários de Varda dependem muito da atuação de Birkin na pele da dona de casa Mary-Jane, que se mostra fluente, segura e tranquila. Surpreende também a interpretação do jovem ator Mathieu Demy (filho da diretora com Jacques Demy) que esbanja carisma e talento como o jovem Julien. A naturalidade com a qual Agnès Varda narra uma história socialmente controversa de uma mulher madura de quase 40 anos a se envolver com um menino de quase 15 anos é fascinante. Varda se importa apenas com uma força motriz: a do amor, corajoso e libertário.       


O menino Julien estuda na mesma turma de Lucy (interpretada por uma ainda muito jovem Charlotte Gainsbourg) filha de Mary-Jane. O escândalo de um romance envolvendo um menino e uma mulher madura é inevitável, põe em xeque a tradicional instituição familiar, sempre implacável com as relações que fogem do esperado socialmente, em especial quando a diferença etária é formada por uma mulher (com certeza a do homem maduro com uma jovem é aceita com menos trauma). Inicialmente Mary-Jane luta contra esse amor de difícil aceitação social, sofre por senti-lo, mas cede diante da força com que irrompe. Claro que ela mesma questiona se essa paixão arrebatadora por Julien acontece pela ausência de um filho, já que gerou apenas duas filhas. Mesmo que essa ideia do amor maternal possa ser aparentemente considerada verdadeira, o que mais sobressai em "Kung-Fu master" é a própria ideia de amor em si, a da necessidade de se viver o amor com plenitude. É Varda reafirmando uma atitude idealista perante a vida, aliás, presente em boa parte de sua robusta filmografia.      

O que Varda mais reafirma em "Kung-Fu master" é o imperativo do amor, seja ele qual e como for, sem preconceitos. A narrativa incorpora uma grande dose de sensibilidade e empatia perante os amantes. Varda, mesmo sabendo da impossibilidade da longa duração desse amor, defende com unhas e dentes o direito dele ser vivido, em especial pela mulher, sendo claramente contra a censura reinante. Quando as famílias e escola descobrem o romance proibido promove vigorosamente a sua dissolução, pois Julien é obrigado a mudar de escola, assim como a jovem Lucy, cuja mãe cometeu o crime de se apaixonar por um menino de quase 15 anos. Interessante como Varda filma no auge da epidemia da AIDS e consegue pontuar um grande espectro conservador em relação à doença, ao sexo em si, registrando com a verve documentarista o choque social de ter que aprender a usar a camisinha. Varda ainda pontua a diferença entre a Inglaterra e a França, sendo essa última tomada completamente pelo pudor, enquanto os ingleses já estão bem mais despudorados e tratando o tema de frente.        


O Kung-Fu master do título do filme é um jogo de videogame, no qual Julien tem muita habilidade em jogar. Ao final, descobrimos que o jogador ao "vencer a máquina", liberta a mocinha até então capturada pelos vilões, para enfim salvá-la e beijá-la. Mas no jogo da vida não funciona exatamente assim e o maior trunfo de Varda é o de não julgar os personagens, pelo contrário, é o de enaltecer o amor, como entidade muito falada, mas de fato pouco vivida, na medida que precisa ser enquadrada em regras conservadoras para manutenção da sociedade contemporânea. 

"Kung-Fu master" é cinema puro, consciente do discurso que veicula, que acredita nas personagens e na necessidade de deixar a narrativa e a vida fluírem como linguagem, em defesa do viver. Surpreendente como aqui Varda reafirma a excelência de sua filmografia, marcada sempre por doses generosas de sutileza, humanidade e compromisso com a felicidade. Afinal, para Varda a felicidade é a plenitude da vida e o sentido maior a ser buscado enquanto a chama da vida persistir em ficar acesa. A genialidade de Varda não se esconde em planos rebuscados ou narrativas mirabolantes e rocambolescas, muito pelo contrário, se revela com o mesmo prazer que sentimos quando assistimos a um rio a fluir infinitamente ou quando uma onda fria vem acariciar os nossos pés quentes na beira-mar.  

Visto na Plataforma Mubi, no dia 23/08/2021.

Cotação: 5/5

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