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O EXERCÍCIO DO CAOS (2013) Direção de Frederico Machado


RELAÇÕES FANTASMAGÓRICAS EM UM BRASIL RECÔNDITO  

Por Marco Fialho

Com o lançamento do seu  primeiro longa-metragem, O Exercício do Caos, Frederico Machado se afirma como um dos grandes nomes do recente cinema autoral brasileiro, e todo esse reconhecimento não vem à revelia, foi resultado de um trabalho hercúleo e quase solitário desse realizador. 

A biografia de Frederico inclusive é marcada pela coragem e amor ao cinema. De cinéfilo nos anos 80 tornou-se realizador de curtas nos anos 90, dono de locadora de vídeo e de lá para cá não parou mais. Mas o maior divisor de águas de sua carreira cinematográfica foi a criação em 2008, da Distribuidora Lume Filmes, em São Luís do Maranhão, inteiramente dedicada ao cinema de arte. 

O Exercício do Caos
é mais uma prova da devoção de Frederico ao cinema, um enredo cravado em um Brasil recôndito e fantasmagórico, com personagens que vivem à sombra da lei, de forma cíclica, existências à mercê de um moto contínuo social, que servem apenas para girar a roda da fortuna dos poderosos, usufruindo e contentando-se apenas com os infortúnios da vida. Como já havia realizado em seus curtas, Frederico novamente subtrai os rostos dos poderosos, que surgem apenas mencionados nas falas dos personagens. 

O filme narra o cotidiano de um pai e três filhas já moças que vivem do plantio da mandioca. A única relação que possuem com o mundo é com o capataz da fazenda que recolhe a mandioca triturada e os paga com o valor oferecido pelo dono da fazenda. A mãe é ausente e faz parte de um mistério a ser desvendado no decorrer da trama.      

A trilha musical de O Exercício do Caos não tem uma relação estreita com a imagem, como um mero complemento da trama, mas sugere nela sensações que engendram poeticidade e dramaticidade às ações dos personagens e cenas. Já a fotografia, assinada pelo próprio diretor, realça os tons terrosos, puxados para o ocre e o amarelo, matizes que revelam a dureza do universo retratado, além de realçar um viés telúrico primordial e rústico. Assim, som e imagem estabelecem um embate estético interessante, pois a faceta poética do som choca-se com a aspereza da realidade social e mundana da imagem. Ao invés de se excluírem no filme, ambas complementam-se. O resultado final resvala em um tom metafísico e em relações que esbarram no soturno e na perversão.

A construção cinematográfica de O Exercício do Caos foi pensada como um tabuleiro de xadrez e a montagem de Raimo Benedeti tem a função de organizar as peças, ou melhor, os planos, ordenando-os sem uma lógica racional, que delega ao espectador o esforço intelectual de juntar os planos descritivos com os das lembranças dos personagens. 

No filme, passado e presente fundem-se em um misterioso labirinto temporal, nos convidando a partilhar de uma narrativa que beira a insanidade. A noção de tempo é imprecisa, torna  o mundo físico em um espaço onde tudo pode acontecer, ele é impregnado de fatos, de histórias secretas: os ambientes do rio, da igreja, do mato, da casa, tornam-se todos cenários fantasmagóricos, que permeiam e se misturam nas memórias dos personagens. Essa construção de atmosfera pesada e relentada faz o cinema de Frederico Machado flertar incessantemente com os filmes europeus (em especial os do leste), com tempos mortos que ajudam a construir o clima fantasmagórico da trama. 

Em "O exercício do caos", Frederico Machado não identifica o que é sonho e realidade e essa abordagem cria uma atmosfera fantasmagórica, como se algo as mantivesse suspensas no tempo e no espaço. As três meninas corroboram essa ideia. A mais velha transa com o pai assumindo a função sexual da mãe; a do meio se oferece ao capataz, ex-amante da mãe, que por sua vez pode ser seu pai; e por fim, a mais nova vê constantemente a imagem da mãe (seria uma transferência ou uma possível condenação do destino?). 

Enfim, o fantasma da mãe atormenta também a vida dos personagens do pai e do capataz. Cada um ao seu modo não consegue esquecê-la, um pode ter a assassinado, outro ainda alimenta sua fantasia erótica viva na imagem da menina prestes a se tornar "mocinha". Os limites são frágeis nesse tipo de constituição familiar, a filha faz a vez da esposa enquanto o capataz faz a vez do amante sedutor, que tem em seu poder o controle da produção do trabalho e das relações afetivas. Tudo se emaranha e faz com que as noções convencionais de família sejam substituídas por práticas afetivas e sexuais idiossincráticas, o que descortina uma realidade brasileira que mesmo situada no governo Collor (anunciada por uma voz que vem do rádio), engendra épocas mais longínquas, pois há um abandono que é perpetrado historicamente, que possibilita ali um universo cotidiano próprio e formador de vivências únicas. 

Mais uma vez Frederico Machado trabalha em seus filmes com as ausências. Inclusive, é impossível compreender o seu universo fílmico sem se fazer essa relação com o que não está diretamente posto nas imagens. A ideia de ausência nos remete às imagens e o seu duplo. Frederico subverte o protagonismo social ao privilegiar personagens comumente ignorados pelo sistema político brasileiro, postos à margem, às vezes ausentes das estatísticas e lhes dando vida, corpo e rosto. Na trama de O exercício do caos os poderosos aparecem como fantasmas, não há como acessar os mistérios do filme sem refletir sobre as relações de poder que lhe são intrínsecas, ou melhor, elas não só permeiam esse ambiente, como também ruminam as entranhas do filme. Nem tudo está contido e explicado nas imagens, mas sim está ali por elas, e não é à toa que as relações de trabalho transbordam no filme, e são filmadas detalhadamente como pertencessem a um documentário, são lentas, calcadas em repetições e funcionam como uma camada de sustentação para o enredo, constituem a base material do filme.              

Há ainda as relações de poder mais explícitas, pertencentes ao aspecto diegético do filme, como a do capataz que oprime o pai, que por sua vez oprime as filhas, tudo isso sob a égide mística do catolicismo. São relações cíclicas de poder, profundamente arraigadas e tipicamente brasileiras, que revelam existências frágeis presas em uma cadeia de interdependência, típica de uma sociedade sem mobilidade.         

O Exercício do Caos mergulha em uma realidade fluída, onde o caos gesta as relações de família e de trabalho no interior do Brasil, e Frederico Machado cria um universo cinematográfico igualmente movediço, impreciso, sustentado por uma relação imagética e sonora que não distingue realidade e imaginação fantasmagórica dos personagens.

O que é reforçado nesse filme é o compromisso do diretor com o cinema autoral, inteiramente liberto dos desígnios da narrativa clássica e completamente sintonizado com uma estética cinematográfica contemporânea, que prefere criar um diálogo com o espectador ao invés de lançá-lo na passividade da simples assimilação de um discurso mastigado e pronto. Com uma postura narrativa corajosa, "O exercício do caos" dissolve o humano em meio a elementos fantasmagóricos imersos numa paisagem, ora crua ora idílica, típica das regiões mais recônditas desse ainda misterioso Brasil.


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