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O GOLEM (1920) Direção de Paul Wegener – 1920

O monstro de barro expressionista *

Por Marco Fialho

Antes que qualquer análise seja realizada é necessário uma breve explicação sobre o significado do título do filme. Golem é um ser artificial mítico, associado à tradição mística do judaísmo, particularmente à cabala, que pode ser trazido à vida por meio de um processo mágico.

E o filme de Wegener inicia com um Imperador de um determinado reino, que não fica claro qual era, mas parece situá-lo na Idade Média, baixando um decreto contra os judeus que perturbavam a ordem pública com seus rituais místicos, ordenando que os mesmos deixassem o reino urgentemente sob pena de serem severamente punidos.

Enquanto isso o líder espiritual judaico já prevê lendo a cabala e os mapas astrais que a posição das constelações mostra que se trata de um momento delicado para o seu povo e vê a necessidade de chamar o golem para defendê-lo.

O líder espiritual, uma espécie de rabino, concebe rapidamente o ser de barro inanimado, e aguarda o instante favorável do alinhamento das constelações para poder dar vida ao seu monstro de barro, ao mesmo tempo em que as negociações com o Imperador não avançam.

Por meio de um ritual eles conseguem dar vida ao tal ser monstruoso, um servo a serviço do povo judeu. O rabino controla o sono do golem retirando a estrela de Davi de seu peito. O Golem passa então a circular pelas ruas, fazer compras e ajudar nas tarefas domiciliares. Até que o rabino resolve levá-lo a uma audiência com o Imperador que decidirá sobre o futuro do povo judeu. Na audiência o rabino com seus poderes mágicos provoca um desastre e o castelo começa a ruir, com a ajuda do golem o palácio é poupado e o decreto contra os judeus é anulado.

O golem percebe que quando a estrela de Davi é retirada de seu peito ele adormece, e passa a protegê-la para evitar mergulhar no sono eterno. O problema acontece quando o golem perde o controle não aceitando mais apenas seguir ordens alheias, mata o amante da filha do rabino, incendeia a casa do rabino e vira uma ameaça ao povo judeu. Ao final o golem é capturado e exterminado, pois já tinha cumprido a sua missão de salvar o povo judeu.

Apesar de toda perseguição ao monstro de barro, Wegener nos brinda com um final sutil e singelo. Quem retira a estrela de Davi do peito do golem, inocentemente, é uma criança, apenas por pura curiosidade de tê-la nas mãos, e lança uma esperança à humanidade acerca de seu futuro.

Wegener não constrói seu golem com atributos de caráter, ele não é bom ou ruim, apenas irracional. O golem segue então a tradição romântica alemã, herdada pelos artistas dos anos 1920. Reafirma o uso do estilo fantástico no cinema alemão, e como seu contemporâneo O gabinete do Dr. Caligari ratifica o gosto pela estética expressionista, da história de horror fantástica, com interpretação exagerada, uso de cenários artificiais e assustadores, além de contar com a exuberante fotografia contrastada, feita pelo célebre artista expressionista Karl Freund. 

* texto escrito para a mostra "Sombras que assombram", dedicada ao cinema expressionista alemão dos anos 1920.

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