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METRÓPOLIS (1927) Direção de Fritz Lang

Na imagem o espetáculo, na mensagem a conciliação

Por Marco Fialho

Metrópolis é sempre lembrado como um filme conciliador, uma obra que busca um mundo harmônico entre o mundo do trabalho e dos empresários. Apesar dessa crítica ainda ser coerente, o que mais marcou esse trabalho visionário e ousado de Fritz Lang é o apuro visual, traço típico da estética expressionista.

Bom frisar que Lang enquanto realizador não foi um expressionista exemplar, apesar de ser excessivamente relacionado a sua estética. Diretores como Robert Wiene, Paul Leni e Paul Weneger, até Murnau em determinados aspectos, traduziram bem mais o universo estético do expressionismo, mas é evidente que Metrópolis traz também importantes elementos característicos que valem a pena ser mencionados.


A magnitude visual de Metrópolis, produzido em 1927, é assustadora, até para os olhos do século XXI, e isso não tem como não salientar. Fritz Lang havia visitado Nova Iorque e ficara impressionado com o cosmopolitismo e os prédios modernos e altos. O filme muito se deve a essa visita e o impacto causado tanto no diretor quanto na sua esposa, a roteirista Thea Von Harbou, responsável pelo roteiro de Metrópolis

Metrópolis carrega consigo uma marca registrada do expressionismo, em especial do caligarismo, o artificialismo dos cenários. Mas em Metrópolis não acontece a distorção dos cenários, mas sim o predomínio das linhas retas e um exagerado artificialismo modernista, tudo nele é construído. Há uma ambiência característica do fantástico, uma preocupação de incorporação de intervenções e criações científicas no enredo, tais como a robô construída à imagem e semelhança da líder operária Maria.  

As maquiagens também são um destaque, as faces dos ricos destacam-se pela limpidez e retidão, as dos operários salienta a dureza da vida. Por sua vez, o cientista com o cabelo desgrenhado explicita uma personalidade volúvel, pronto para ser seduzido pelo poderoso dono da cidade.

A interpretação dos atores é típica da estética expressionista, os gestos bruscos e a encenação onde o corpo todo do ator é colocado à disposição do diretor em busca do sentido almejado. Os movimentos corporais do dono da cidade expressa a dureza e a frieza de sua inflexibilidade, já os movimentos rápidos do filho espelham angústia em direção de uma maior harmonia entre os homens, assim como o urgente senso de justiça.

A fotografia do mestre Karl Freund colabora na concepção de Lang desse mundo belo na superfície mas triste nas profundezas. Freund lança mão de tomadas de cenas realizadas em mosaico, com a projeção de vários olhos, rostos e elementos da modernidade que tão bem espelham a sensação vertiginosa impressa na narração de Lang, efeito que também utilizou em A última gargalhada, de Murnau. Em alguns momentos do filme a alucinação das imagens parece dar a imprecisão necessária para a sequência continuar. 

Em Metrópolis há uma opção clara de Lang pelo espetáculo, antes de tudo um espetáculo visual, incontestavelmente imagético. O filme não se sustenta propriamente no desenvolvimento dos personagens, mas o que está realmente em jogo é o desequilíbrio entre as classes. Lang prefere assumir um discurso social, coletivo e vê o mundo como extremos inconciliáveis: patrão contra operários; a humanização contrastada à robotização; o patrão humano e o desumano; solo e subsolo; o pai e o filho; Maria humana e Maria robô.

Ao conceber a história no futuro, Fritz Lang e Thea Von Harbou instauram uma profecia, de matizes sombrias, de uma mecanização social exacerbada, de um mundo dividido, rachado, onde poucos se divertem, fazem esportes, enquanto a maioria trabalha insone como máquinas para sustentar os poucos privilegiados. No final do filme Lang promove a necessária união entre as classes antagônicas e aceita a possibilidade da confraternização, sendo chamado criticamente de conciliador por vários críticos e artistas.

Apesar desses deslizes ideológicos, Metrópolis se afirma ainda hoje como uma obra visualmente muito bem acabada, uma produção ousada e que ratificou o nome de Fritz Lang como um cineasta importante para os estudiosos do cinema.

Poucos anos depois Lang viria a realizar M, o vampiro de Dusseldorf (1931), uma obra magnífica que muitos apontam como premonitória do nazismo, que já estava batendo à porta da Alemanha de então. Hitler admirava tanto Lang que o convidou para ser o cineasta oficial do nazismo. De imediato, Fritz Lang arrumou as malas e partiu para Hollywood, onde faria uma bela carreira. Sua esposa, a roteirista Thea Von Harbou, preferiu ficar e aderir ao questionável projeto megalômano de Hitler.

* Texto escrito em 2013, para a mostra "Sombras que assombram", dedicada ao expressionismo alemão no cinema.  

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