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ISSO NÃO É UM ENTERRO, É UMA RESSURREIÇÃO - Direção Lemohang Jeremiah Mosese

A vida que sobrevive nas profundezas da narrativa como resistência 

"O sino da igreja fala, badalando sob as águas, badalando. Nas profundezas, o sino fala quando as pessoas não conseguem".   

                                       Narrador griot do filme  

"Isso não é um enterro, é ressurreição" é um desses filmes especiais e cada vez mais difíceis de encontrar em meio a uma profusão de filmes que temos hoje pelo mundo. Uma obra vinda do Lesoto já revela-se uma surpresa em si, um enclave incrustado no território da África do Sul e muito dependente economicamente desse país, em especial na produção de energia a partir da água, bem abundante nesse pequeno país montanhoso. Não por acaso a água está no centro da obra do diretor Mosese. O governo quer fazer uma represa e para isso deixará submersa um povoado inteiro. Só não contava com a forte presença de Montoa, uma viúva de 80 anos cuja vida e seus familiares mortos se encontram ali enterrados naquela terra. 

O grande acerto de Mosese são as escolhas narrativas que faz. Escolhe contar a história por meio de um griot, essa figura tradicional fundamental na preservação da memória e na cultura de vários povos do continente africano. E "Isso não é um enterro, é uma ressurreição" se apoia em um griot para ser o narrador do filme. O mais incrível é nunca vermos os rostos desses membros do governo, eles não são protagonistas, são elementos de perturbação da ordem tradicional de um povo humilde que sobrevive do comércio de ovelhas e do pastoreio. A viúva Mantoa é a protagonista, de quem emana uma beleza comovente pela simplicidade de viver e agir, personagem com a história escrita no próprio rosto. 

Nem todo mérito deste filme está na narrativa escolhida. A construção imagética e sonora proposta por Mosese é daquelas raras de se ver. Quadros inundados pelo belo, mas que também salientam significados preciosos. Logo no plano-sequência inicial ele nos presenteia com um travelling, onde explora os cantões de um bar que mistura o soturno, o misterioso e o sedutor, tudo amparado numa fotografia predominantemente amarelada (lembrando o sépia) com toques graciosos de azuis que nos introduzem em uma atmosfera lúdica, ao som de um saxofone puxado para um tipo de jazz livre e esfumaçado. O ambiente é convidativo, mas não é de festa. Umas pessoas estão bebendo em pé pelos cantos, enquanto uma se arriscar a bailar como se ali flutuasse. É nesse clima que antes de encontramos a figura do griot, somos embalados na voz rouca dele começando a narrar  a história que veremos a seguir. O próprio griot é quem está tocando um instrumento de sopro típico do lugar, desconhecido da cultura ocidental. O som lembra um saxofone, só que mais rascante. Ele nos apresenta o lugarejo de Nazareh, assim chamado devido ao aspecto religioso do povo que vivia lá. Descobrimos que é a história de um povoado que não existe mais a não ser pela força dessa memória de lutas pela preservação da cultura deles. A força da memória e da luta, assim somos introduzidos ao filme. Esse é um início de filme daqueles bem pensados e estruturados, que nos insere da maneira mais potente possível no universo da narração. É cinema maior, é encantamento pelo pensamento que está posto em cada detalhe da construção cinematográfica, por isso tudo aqui é raro.

O filme ao invés de narrar a história das perdas familiares de Mantoa, prefere ressaltar as lutas dela, a valentia da alma sob um corpo já pisado pela vida dura do cotidiano nas altas montanhas do Lesoto. Sem marido, filhos e netos, resta a luta pelo coletivo no qual ela está inserida. A parte literária do roteiro valoriza cada aspecto do que está sendo narrado, são palavras que constroem pensamentos: "além de Deus, a realidade também parecia ficar distante", diz o griot sobre a vida de Mantoa após a morte do filho, enquanto sons de raios anunciam que uma tragédia ainda maior está por vir. Incrível como Mosese está milimetricamente atento a tudo em sua obra: texto, imagem e som. Tudo lindo de ver e sentir.     

A câmera proposta por Mosese está impregnada de uma visível sensibilidade, pela maneira como enquadra, como movimenta sem se colocar como protagonista, respeitando e deixando para Mantoa uma centralidade arrebatadora, mas descrevendo com precisão e delicadeza cada cena do filme. Um exemplo é o plano-sequência da notícia da morte do filho, em que a câmera lentamente vai para o céu, traduzindo o desamparo de Mantoa e quando volta à terra vemos o velório acontecendo sob o olhar incrédulo dela.

Os momentos pós-morte são lúdicos e melancólicos para Mantoa, como obra da imaginação ela dança com os mortos, como se assim convocasse a chegada dela, mas como diz o griot, "velha, a morte te esqueceu". Essa atmosfera é evocada por uma direção de arte (que roupas majestosas) e uma fotografia que brincam com uma ideia que suscita algo entre a realidade e a fantasia. Aliada a essa camada imagética há ainda uma carga dramática que se assenta pelo uso de uma música melancólica e uma concepção de tempo alargado que cria a tensão do momento de indefinição e incerteza de Mantoa, sem esquecer da expressividade de Mary Twala Mhlongo, em uma atuação tomada por uma graça encantadora, um olhar penetrante em várias cenas em que encara a câmera sem nada falar, apesar de tudo dizer com a simples presença.

O que a faz ressuscitar é a própria realidade, o anúncio que toda a comunidade vai virar uma área de represa e todos terão que dali sair. Essa é a reviravolta do filme, a ideia de progresso e desenvolvimento se choca com o respeito profundo de Mantoa pelo memória do vilarejo, pelos mortos enterrados ali. São os interesses econômicos falando mais alto, a sepultar a cultura do lugar, a querer esmagar a vida de um vilarejo com tradições sedimentadas pelo cotidiano. Tocante quando um dos personagens do vilarejo diz que "toda a vez que vou falar a palavra progresso, minha língua enrola. Não consigo dizer". E quando Mantoa vai abrir diálogo com o governo conhece a indiferença mascarada pela impessoalidade nas relações entre os políticos e os eleitores, em especial os mais humildes. Ela descobre que é prisioneira dos governos, do descasos deles. Mosese não desperdiça nenhuma imagem com os políticos ou eles estão no contracampo ou desfocados em um segundo plano bem distante. Esse é o conceito radical de ponto de vista que ele tece para "Isso não é enterro, é uma ressurreição". 

Talvez melhor do que dizer tradição cultural ou cultura tradicional seja dizer que o filme evoca a ancestralidade. Tradição pode remontar a algo imutável e irredutivelmente morto. Já ancestralidade traz uma vivacidade porque algo dos que vieram antes de nós ainda está em nós, assim como deixaremos para outros traços nossos. Por isso uma comunidade não é só familiar, ela envolve tios, avós, padrinhos e amigos. São todos que estabelecem trocas conosco durante a vida. É salientar aspectos cíclicos da vida e da morte, isso faz com que quem já não está mais fisicamente aqui continue de alguma maneira perpetuado. Curiosamente, é um canto ancestral que Mantoa reconecta a aldeia, a memória dos antepassados pela narrativa musical e corpóreo, porque é no corpo que involuntariamente a reconexão se dá. Creio que a narrativa de Mosese se prenda a isso e tanto o título dessa obra quanto a cena final evidenciam isso de uma maneira muito contundente e potente. Ressuscitar é mostrar a força da ancestralidade de um coletivo, e do próprio chão, pois é no terreno a morada eterna dos mortos.

Mosese em relação ao roteiro pensa em duas perspectivas: uma, a do narrador griot, que nos conta sempre preservando um quê de poético; outra, a do cotidiano onde pontua cena objetivas, calcadas nas ações dos personagens. Há então um equilíbrio narrativo que ora nos arremessa ao encantamento e ora nos lança na mais cruel realidade. Assim, algo de abstrato e de concreto coabitam concomitantemente na proposta de Mosese. E o concreto no filme é duro demais. Mantoa no auge dos 80 anos já perdeu toda a família e agora perde a casa (em um incêndio a que tudo indica ser criminoso). São histórias de luto, de vidas solapadas pela ambição humana. Lentamente Mantoa vai se desgarrando das tradições europeias, renega a reza católica e mergulha nas vozes ancestrais em busca de se reconectar com um mundo que lhe seja reconhecível.       

"Isso não é um enterro, é uma ressurreição" até o fim percorre ora um tom fabular ora realista, afinal, o que Mosese quer provocar nos espectadores é uma reação humana acerca da ambição destrutiva que tão bem caracteriza a civilização contemporânea, sem esquecer de inserir a poesia e a fantasia no discurso de resistência. Para o diretor, a cova aberta por Mantoa deve ser vista como uma metáfora de uma morte vivida, anunciada, nunca em vão, mas uma vida como sentido coletivo, com a força de uma ressurreição, já que a vida sempre seguirá pelas novas gerações. Para Mosese a narrativa seja ela de origem oral (ancestral) seja ela cinematográfica (contemporânea) precisa simbolizar a vida, e nas profundezas deve emergir como resistência à impessoalidade para a qual a sociedade instituída tristemente caminhou, para um individualismo estéril e impotente. As vozes e os coros precisam ser urgentemente  potencializados enquanto instrumentos de resistência coletiva. Um griot sabe disso e nós também precisamos sabê-lo.

Visto na plataforma on line da 44ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, no dia 01/11/2020. 


                                                                                                                                   

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