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RASHOMON (1950) Direção Akira Kurosawa


Texto por Marco Fialho *


Um certo ladrão

Tudo me levou, exceto

Lua na janela

Ryôkan (1757 - 1831)

 Apesar de não ser um típico filme de samurai, foi Rashomon o primeiro film japonês a encantar o ocidente, curiosamente um jidaigeki. Porém, mais do que a trama, o que encantou o mundo foi sua premissa filosófica e altamente humanística de questionar de uma só vez a verdade e o papel do homem na história. Tal com Orson Welles já havia realizado em Cidadão Kane, Kurosawa investe ferozmente sobre a busca da verdade e a sua função na sociedade e na vida dos homens. Enquanto Welles trabalha na busca da verdade sobre um homem, Kurosawa debruça-se na verdade sobre um acontecimento, no caso, o assassinato de um samurai em uma floresta no século 12. O fato do filme se passar no século 12 não é casual. Kurosawa quer mostrar que os problemas humanos têm largo espectro, não são restritos ao passado ou ao presente, mas sim possuem uma permanência histórica. Lembremos a própria situação difícil do Japão nos primeiros anos da década de 50, durante a ocupação liderada pelo General Douglas MacArthur, versão em solo japonês do movimento caça às bruxas macarthista dos EUA, prestes a combater qualquer ameaça esquerdista. Em sua vida Kurosawa conviveu sempre  com a intolerância política, com a censura, a rigidez dos ditames militaristas, na escola e depois durante o trabalho no cinema.

 Durante a projeção de Rashomon sente-se uma indignação latente do artista Kurosawa, uma imensa frustração com os caminhos tomados pela humanidade, mas há também, em contrapartida, um elemento típico que permeia toda sua filmografia, a esperança de que é possível o ser humano viver em harmonia e com justiça em sua trajetória na Terra.

Chama a atenção ainda em Rashomon os diversos narradores que o filme apresenta. Logo no início um sacerdote e um lenhador estão no portal de Rashomon, inconformados com o julgamento da morte do samurai. A chuva torrencial funciona como um impeditivo para a saída deles do portal, ao mesmo tempo em que ela os isola, ela funciona também para criar um clima pesado à história. Logo outro homem se junta a eles, os motivando a contar sobre o terrível julgamento presenciado por eles. O lenhador é o narrador principal, muito bem interpretado por Takashi Shimura, pois ele traz as outras narrações do filme. O filme só tem três cenários: o portal, o julgamento e a floresta. A narração do lenhador passeia vai levando a história ora para o julgamento ora para a floresta. O portal foi o único cenário construído para o filme.


Se na trama o lenhador se configura como o narrador principal, a floresta pode ser vista como o grande palco onde tudo acontece, pois é nela que as diversas versões do assassinato se desenvolvem. São quatro os personagens envolvidos: o samurai, a mulher, o bandido e o lenhador. Logo no início do filme, o lenhador conta que estava andando na floresta quando viu o corpo morto do samurai, porém ao final veremos que não foi bem assim, que ele estava escondido na mata observando toda a cena. Os quatro dão o seu depoimento. Até o morto fala por intermédio de uma médium.

A filmagem na floresta era um obstáculo a ser encarado do ponto de vista técnico. As copas das árvores eram muito altas e grandes, o que criava uma dificuldade para a fotografia do filme. O fotógrafo responsável pelo filme, Kazuo Miyagawa, utilizou espelhos para poder manipular a direção dos raios solares sobre os atores. A câmera possui uma grande importância no filme. Nota-se como ela acompanha os movimentos rápidos dos atores. Kurosawa imprime uma dinâmica moderna tanto nas filmagens quanto na montagem. Algumas cenas possuem muito planos curtos em sequência, que transmitem a impressão de celeridade na narrativa fílmica. Rashomon era um produto formalmente moldado para o ocidente: roteiro brilhante e criativo; fotografia em preto e branco impecável; direção firme; música épica de Fumio Hayasaka; e exotismo. Como não se encantar com a cena em que o bandido fica fascinado pela imagem da mulher linda e misteriosa em seu quimono envolta em véus transparentes sobre um chapéu enorme que lhe encobria o rosto. Só resta a nós espectadores ficarmos solidários ao encantamento do bandido.

Talvez Rashomon tenha sido um dos jidaigeki de Kurosawa onde a natureza assuma um papel de destaque, em especial pelos belos sombreamentos de folhas das árvores nos rostos dos personagens nas cenas da floresta. Kurosawa também aponta a sua câmera para o sol, feito inédito e de ousadia, pois se acreditava na época que isso queimaria a película. Há um respeito da parte dele em relação à natureza e isso fica evidente na cena em que a mulher está lavando as mãos no rio. A delicadeza dessa imagem é tocante, transbordante de poesia e beleza, de quem tem um olhar de admiração profunda à natureza. Toda essa busca de uma pureza e beleza vinda da natureza, logo a seguir choca-se violentamente com as atitudes dos personagens que revelarão imperfeições inerentes à natureza humana. É justamente essa fragilidade que o diretor tenta extrair de seus atores, algo que ressalte, mesmo que sutilmente, uma vulnerabilidade.Rashomon • Akira Kurosawa Information             

Kurosawa sempre foi reconhecido pelo seu talento em dirigir atores. Em Rashomon essa fama se justifica. A dramaticidade das cenas explode na tela, às vezes até de forma exagerada, em especial na atuação de Toshiro Mifune, que interpreta um bandido que beira o histriônico. Já o lenhador construído por Takashi Shimura é mais contido, mais controlado nas suas manifestações de sentimento, nos deixando intrigados em relação ao seu caráter. Machiko Kyo faz uma mulher cheia de dubiedades, tentadora, mas traiçoeira e perigosa. É uma atuação ousada, que trabalha no limiar entre as convenções e a necessidade de sobrevivência. O aspecto sobrevivência é fundamental e agrega um fator intrínseco à personalidade do personagem, pois quanto mais próximo ele estiver dessa necessidade mais vulnerável e imprevisível ele age.

 O grande trunfo construção de Kurosawa é mostrar que dentro do filme existem diversas possibilidades de narrativas e que cada uma delas poderia desembocar em uma história diferente. O filme resulta de diversos flashbacks que ao invés de montarem um quebra-cabeça esclarecedor resultam em um mosaico que pouco explica o acontecimento do assassinato, já que cada versão contraria e choca-se às  outras. Mas Kurosawa no transcurso do filme vai deixando claro que não está interessado em descobrir qual personagem traz a verdade dos fatos. Independente dessa verdade, o que está por trás de todos os depoimentos e narrativas é o absurdo humano, a mesquinharia, o desamor, as relações sustentadas em interesses escusos. 

Assim Kurosawa condena com veemência o presente, mas lançando para o futuro uma esperança de que novas gerações possam dar passos mais consistentes rumo a um entendimento entre os homens. Daí surgir, como se fora um passe de mágica, no meio do temporal, uma criança no portal Rashomon. A criança, ou a entidade se assim preferir, vem ninguém sabe de onde, misteriosamente, talvez do próprio céu, como a própria chuva. Porém, sua aparição improvável, lança uma chama, uma luz no fim do túnel da humanidade ao resgatar no meio do caos, um sentimento de solidariedade guardado no coração de um homem simples, o lenhador.

*texto escrito para o catálogo da mostra "Jidaigeki: viajando com Kurosawa ao Japão Feudal" (2016)

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