A FORTALEZA ESCONDIDA – 1958 *
Por Marco Fialho
Desperta,
desperta,
Tu
serás a minha amiga,
Feliz
mariposa.
Bashô (1644-1694)
“A Fortaleza Escondida” é mais um trabalho de Kurosawa a prestar uma reverência à força narrativa de John Ford, com muito da filmagem sendo realizada em locações, lembrando muito, imageticamente, os planos gerais e panorâmicos à moda dos faroestes fordianos. A questão da relação com o espaço é um componente importante da construção cinematográfica do filme. O uso de cavalos e como eles compõem com esse espaço era resultado de uma inspiração vinda da poesia em movimento de Ford, conforme Kurosawa gostava de definir a obra do diretor norte-americano.
Outra
lição aprendida por Kurosawa em conversas com Ford foi sobre as quantidades de
tomadas de cada plano a serem filmadas. Para ambos, quando o ensaio é bem
executado, a primeira tomada é a que melhor expressa a emoção pretendida por
ser sempre a mais espontânea. Ressalta-se que o diretor utilizava de 3 a 4
câmeras nas tomadas mais difíceis de serem executadas. Por falar em ensaio, em
“A Fortaleza Escondida”, Kurosawa investiu muito no ensaio da estreante Misa
Uehara, que faz o papel da princesa Yuki que se desgarra de seu clã, vencido
por um outro rival durante uma guerra civil. Inclusive, há um excesso na representação
dos atores no filme. Os personagens tem uma fala teatralizada e gritada, mais
do que o habitual em outros filmes de Kurosawa.
O crítico Donald Richie, o maior especialista em Kurosawa no mundo, apresenta o enredo do filme da seguinte forma:
A grande diferença é que na apresentação da história pelo historiador Donald Richie os camponeses surgem ao final como se pouca coisa representassem ou acrescentassem à história, o que de fato não ocorre ao assistirmos ao filme. O impressionante é que Kurosawa ousou em conceber os dois camponeses como narradores de seu filme, mesmo eles não sendo os protagonistas, apenas os chamados “escadas”. George Lucas reconheceu recentemente que escolheu colocar os dois robôs (C-3 PO e R2 - D2) em “Guerra nas Estrelas” como importantes narradores após assistir “A Fortaleza Escondida”. Graças à Kurosawa Lucas pensou colocar em dois personagens menores como crucias também na narrativa do seu filme.
Há
no enredo em si uma grande inspiração no Nô. O fato da princesa está disfarçada
e só ao final revelar a sua identidade verdadeira é um aspecto característico
do Nô. Do ponto de vista cênico também, o final, da revelação da princesa é uma
encenação típica do Nô, assim como o da celebração da festa do fogo. Mais uma
vez, Kurosawa se rende à beleza do Nô.

O interessante desse filme é que ele pode ser lido de várias maneiras, mas de qualquer forma sempre será por um viés insólito. Pode ser encarado como um conto de fadas, mesmo que seja um atípico conto de fadas, pois não tem nenhum grande encantamento e a história não gira apenas em torno da princesa. Outra leitura possível é dele ser um road movie. A princesa e o general em busca de um lugar, que eles não sabem qual é a princípio; os camponeses buscando algum sentido que nem eles sabem também qual é, em especial que os tire da condição miserável. Outra abordagem possível é de ser uma metáfora filosófica sobre a busca de um sentido para vida, já que cada personagem aprende bastante em sua errância.
Uma das características bem marcantes da concepção de cinema de Kurosawa é a propensão a colocar pitadas de moral em suas histórias, e com “A Fortaleza Escondida” não foi diferente. A princesa, quando forçada a sair de seu castelo, descobriu o mundanismo e aprendeu canções populares durante as festividades do festival do fogo. Ela ganhou a oportunidade de conhecer o povo de perto, e ver que era tão humano quanto qualquer outra pessoa. Já os camponeses aprendem que o valor da amizade está acima das ambições de riqueza.
Apesar de ser uma obra pouco assistida do mestre Kurosawa, “A Fortaleza Escondida” muito revela acerca uma extraordinária capacidade e domínio dos recursos cinematográficos. O enfoque dado à música do festival do fogo, que no final é repetida pela princesa, expressa com perfeição as ideias que o próprio diretor tanto buscou durante a vida:
Viva
com toda sua força.
Acenda
uma chama nesse mundo escuro,
Pois
o sonho da vida dura apenas uma noite.”
*texto escrito para o catálogo da mostra “Jidaigeki: viajando com Kurosawa ao Japão Feudal”, em 2016.

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