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DIAS VAZIOS - Direção de Robney Bruno Almeida


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Quando as aparências sociais desmoronam

Por Marco Fialho

Passando quase despercebido em nossos circuitos, o ótimo "Dias vazios", filme goiano dirigido por Robney Bruno Almeida e adaptado do romance "Hoje está um dia morto" (livro premiado e revelado pelo Prêmio Sesc de literatura), de André de Leones, fala da dureza de ser jovem numa cidade do interior, onde as perspectivas de futuro são poucas e acachapantes.

A crítica social é um dos grande trunfos do filme. A cada cena, Robney insere detalhes e informações que lentamente vão desenhando um castelo encantado prestes a ruir. Uma arma poderosa são os próprios jovens, personagens precisos para se construir importantes reflexões sobre o inconformismo.

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Robney opta por dividir a história em capítulos, opção até questionável, visto que ela não traz grandes contribuições para o todo. Mas o grande interesse do filme estão nos personagens Daniel e sua namorada Alanis. Através deles vários elementos simbólicos são destilados e bem desenvolvidos.

Quando a narrativa assume o ponto de vista do livro de Daniel, o filme adquire uma nova direção, já que a imaginação assume o controle da ação. Fato e fabulação se misturam, o que torna tudo mais rico. Subjetividades afloram e tudo caminha para o imprevisível. Robney começa então um jogo criativo entre a escrita literária e a adaptação cinematográfica, entre invenção e literalidade.
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Outro dado importante é o da concepção de tempo do filme. Robney aproveita bem o fato de que pouca coisa acontece numa cidade pequena e valoriza ao máximo isso, incorporando à trama um ritmo lento que acresce muito à sua proposta dramatúrgica.

Como boa parte da história se passa em uma escola católica, Robney explora com precisão na direção de arte todas as contradições possíveis entre as falas e as imagens, onde a presença de crucifixo em ambientes fora da escola nos fazem remeter imediatamente à educação religiosa dos personagens e ao universo de uma escola católica, isto é, estes detalhes reforçam que a moral aprendida no ambiente escolar possui um peso enorme na vida dos personagens, até quando eles estão fora de seus muros.

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Dias vazios nos faz lembrar a célebre série "Twin Peaks", de David Lynch, ao desmontar algumas contradições inerentes a uma sociedade linda na superfície, mas podre e hipócrita por dentro. Não à toa, a cada cena o discurso da madre diretora da escola vai se esfacelando e se demonstrando inócuo.

Robney nos mostra que a idolatria absolutizada de que no interior encontramos uma vida mais saudável do que nas grandes cidades não se sustenta enquanto discurso. O diretor então, acerta a mão ao conseguir criar importantes camadas em seu "Dias vazios". Inicialmente parece que ele está tão somente falando de jovens entediados e inconformados, mas não, no decorrer da exibição verificamos que por baixo dessa camada inicial, encontramos uma série de valores que nos formaram enquanto uma sociedade branca, classista, católica, hipócrita e gerida por uma ideia opressiva, que nos impingiu a uma dose expressiva de infelicidade. O que vemos então de mais relevante em "Dias vazios" é a exposição das nossas mais profundas contradições enquanto formação social, o que faz essa obra um testemunho histórico, para ser não só assistida, mas também discutida por todos.

Visto no 51º Festival do Cinema Brasileiro de Brasília em 2018.
Cotação: 4/5 

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