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AS MIL MULHERES - Direção de Rita Toledo e Carolina Benjamin


A força do feminismo nas artes e na vida

Crítica por Marco Fialho

Apesar dos imensos desafios ainda a serem enfrentados, a luta das mulheres contra o machismo está cada vez mais forte e evidente na sociedade brasileira. Felizmente, o cinema anda se ocupando cada vez mais pelo tema, especialmente as mulheres que vem ocupando mais espaços nesse reduto tão masculino e machista que é o do cinema. Por isso, filmes com essa temática são mais constantes do que há alguns anos atrás e muito por conta de uma mobilização crescente de feministas que viram no audiovisual uma ferramenta importante para levar denúncias e reflexões sobre temas que envolvem diretamente as mulheres.

Mas preciso realmente confessar que "Mil mulheres", documentário poderoso dirigido por Rita Toledo e Carolina Benjamin, foi o que mais me impactou até o momento. Tudo no filme é altamente potente. Nele, as diversas formas de violência contra a mulher vem à tona, o que o torna um produto visceral e necessário. Vivemos em um país com as mais altas taxas de feminicídio do mundo, o que faz dessa discussão como muito pertinente de ser levantada.                           

O documentário nasceu a partir de um chamamento público, em especial a instituições, coletivos e fundações artísticas e culturais afinadas com a proposta do filme, que foi lançado no site especialmente criado para o projeto do filme. A proposta da obra é trabalhar o processo de trabalho de 4 artistas que agregam o ativismo feminista como mote de sua produção. A escolha dessas quatro artistas foi realizada por meio de inscrições no site. Foram escolhidas então duas brasileiras, uma norte-americana e uma uruguaia.

As diretoras Rita e Carolina constroem uma narrativa muito instigante ao optarem por intercalar as histórias, ao invés de contá-las uma a uma integralmente. Mas a estratégia funciona muito bem porque todas as quatro histórias são significativas, portanto, o corte de uma história para outra sempre mantém o ritmo narrativo do filme. 

Vamos então a cada uma das histórias, porque vale a pena falar das quatro protagonistas do filme:
1) Lena Chen foi vítima de revenge porn quando um namorado expôs na internet vídeos deles fazendo sexo. A perseguição e dor foram tantas que ela se exila em Berlin, onde desenvolve uma série de ensaios fotográficos artísticos do seu corpo nu. De volta a Los Angeles começa um trabalho artístico e terapêutico com grupos, no intuito de sensibilizar outras mulheres em relação ao papel do corpo da mulher na sociedade.
2) A artista visual e muralista Florencia Duran constrói imensas obras com rostos femininos. Seu trabalho é visualmente impactante. Ela se sensibiliza com a luta de três mulheres já idosas que valentemente enfrentaram políticos poderosos desejosos em desabrigá-las de suas moradias na Vila Autódromo, no ensejo das obras para as Olimpíadas no Rio. O lema dessas mulheres é simples, direto e eficaz: "Vila Autódromo existe e resiste".
3) Bia Ferreira é uma jovem, cantora, instrumentista, poeta, letrista, gay, ativista e sempre aberta a parcerias artísticas com outras mulheres. Criada numa família evangélica Bia teve que se esmerar desde cedo para afirmar sua música combativa e militante. Uma artista jovem, extremamente potente, que sabe o que quer e disposta a lutar pelos direitos das mulheres.
4) A arte da performer Ana Luisa Santos é feminista em sua concepção mais provocadora e radical. A base de seu trabalho está contida na frase-indagação: "Você quer ser feminista?" Ela cria performances a partir de seu corpo e as compartilha no centro nervoso do Rio de Janeiro, o Largo da Carioca. Suas obras permitem o confrontamento direto contra o machismo e preconceito mais arraigado. Constantemente Ana Luisa fica exposta e vulnerável às reações mais violentas. O viés de suas obras está profundamente emaranhado à uma ideia de militância e por isso não podem ser dissociado dessa perspectiva ativista, mas que traz um risco eminente à sua integridade física, já que essa estratégia da presença está sujeita às reações, inclusive de violência por parte de quem a assiste. Entretanto essa sua coragem acaba revelando o tamanho do desrespeito às mulheres no Brasil.

Essas são as quatro artistas que seguimos durante o filme. O dispositivo assumido pelas diretoras, de escolher retratar artistas que desenvolverão obras a partir da história de outras mulheres funciona como um indicativo de como temos que avançar como sociedade na afirmação de direitos, nesse caso específico, de direitos da mulher. Machismo, preconceito, respeito, empatia, igualdade e violência são aspectos decisivos que o filme aborda. A câmera registra o trabalho de cada uma delas, as dificuldades advindas de cada processo e há uma atitude de completo respeito em cada tomada, em cada ângulo.

Confesso minha ainda perturbação com a cena final. Para mim, ela extrapola o tema do feminismo por trazer junto uma síntese de um país cada dia mais preocupante, intolerante, avesso às artes e muito mais... Quando Ana Luisa Santos propõe sua "melindrosa" esculpida por notas de 10 reais sob o seu corpo nu, o que se revela ali não é a barbárie daquelas pessoas, como eu ouvi do lado de fora da sala. Talvez o que o final aponte seja a ponta do iceberg ou a faceta mais visível de um processo de barbárie. Desde o início dela há uma tensão avassaladora, terrivelmente ameaçadora para a artista. Tememos sempre pela vida daquela mulher ali tão exposta, enfrentada e ameaçada. Essa cena talvez nos mostre o quanto nossos discursos honestos e justos não possuem eco enquanto efetivamente existirem os excluídos. A fome e a arte são terminantemente incompatíveis. A fome não conhece a arte, a ignora por completo.

A descoberta da essência do que é o Brasil está toda nessa cena, ali está a nossa tragédia histórica. A mesma sociedade classista que exclui os pobres vitima igualmente as mulheres. As desigualdades são das mais variadas espécies, são econômicas, sociais e culturais. Uma roupa repleta de dinheiro possui um valor estético em uma perspectiva social, onde existem parâmetros simbólicos presentes. Anulados os simbolismos da performance da artista, o que sobra é apenas a materialidade do que é mostrado, isto é, um corpo feminino com dinheiro pendurado. Por isso o choque dessa cena é brutal e seu impacto será medido sempre mediado pelos valores de quem a observa e analisa. Para muitos pode ser uma desvalorização do corpo feminino. Para outros um ataque de esfomeados pelo dinheiro. Por isso precisa-se olhá-la pelo que ela elucida para além da ponta do iceberg. O que ela nos fala sobre a nossa sociedade patriarcal, branca, profundamente desigual, machista, racista e esfomeada. Ela é uma cena múltipla que nos faz assombrar de uma vez só passado e presente do nosso país. Não à toa, a câmera precisa ser largada para tentar proteger a artista (e mais ainda, a mulher). Essa cena nos mostra, de forma veemente, que a arte nessa hora é menor que a vida. E nos faz perguntar como seria se o performer fosse um homem. Todavia, o filme reafirma algo de crucial, que a luta feminista também é a luta pela vida e pelo país, e precisa ser de todos. E todos os dias. Por isso justifica-se que da imagem abandonada para salvar Ana Luisa passamos para a tela preta onde lemos: "em homenagem à memória de Marielle Franco". A síntese então rapidamente se completa.   

Visto no Estação Net Botafogo 1, na Mostra Estreias Cariocas, no dia 17/03/2019.
Cotação: 4/5 


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