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ESPERA - Direção de Cao Guimarães


O devaneio preciso de Cao

Crítica escrita por Marco Fialho

"Espera", dirigido por Cao Guimarães, é simplesmente uma obra de primeira grandeza, uma pérola do cinema contemporâneo, um clássico prematuro. Há uma sentença dita por Cao que muito diz sobre o seu filme: "Enquanto espero devaneio. A espera é a condição para o devaneio". O devaneio aqui mencionado é a ode sobre o tempo, uma homenagem de Cao ao bem mais precioso que o homem abriu mão. Cao, ciente disso, nos entrega um vigoroso ensaio poético sobre a espera, ou melhor, sobre o tempo e o devaneio, que nada mais representa do que a capacidade humana de fugir da rotina e voar.

Cao Guimarães veio da videoarte, isto é, da consciência do hibridismo nas artes, edifica a partir dessas práticas o exercício de seus ensaios audiovisuais. Assume os processos limítrofes como próprios e como princípio do trabalho. Não casualmente ele está presente em quase todos os departamentos do filme.

Limites que estão para além da própria arte. Gael Benítez é uma prova viva na qual Cao nos aproxima da angústia da espera. Gael é um trans que toma testosterona e espera. Seu objetivo é poder ser plenamente como ele se vê, como homem.

Tudo o que está na tela é resultado de reflexões cuidadosamente arquitetadas. Tudo ali está sob o controle de Cao. Os enquadramentos são precisos, pois ele sabe como poucos posicionar a câmera. O desenho de som do O Grivo (parceiros contumazes de Cao) cria camadas sonoras muito particulares e introduz uma atmosfera penetrante que estabelece um diálogo rico com o filme, sem nunca parecer banal.

"Espera" dialoga diretamente com o cinema do mestre Dziga Vertov, na medida em que está mais preocupado em desenvolver um determinado conceito, no caso o da espera, do que uma narrativa. Cao entrega uma pequena mostra de um inventário infindável e sedutor das esperas. Na impossibilidade de fazê-lo por completo, ele nos provoca ao apenas insinuá-lo, propor um singelo traço da ideia. A partir de sua "Espera" ficamos a refletir infindavelmente sobre as possibilidades de existência. Enfim, o que Cao promove é um arco conceitual, um algo que podemos assim perseguir, inclusive na nossa vida. Há um quê de materialização desse conceito. Podemos exercitá-lo, por-lo em prática, a todo momento.

Isso tudo nos faz lembrar novamente do mestre do cinema russo, Dziga Vertov, que nos anos 1920, propôs que o cinema abdicasse de ser uma arte narrativa (atributo esse para ele da literatura) para desenvolver outros atributos estéticos, como o de ser criador por meio da montagem, de uma arte não narrativa, onde o ritmo e a combinação das imagens seriam a matéria-prima do filme. Da mesma forma que Vertov, em um dos filmes mais célebre que realizou tornou a câmera uma protagonista, Cao não deixa de fazer o mesmo com o filme super-8 em "Espera", presente desde o início como a própria metáfora central (afinal ele ficou anos na geladeira esperando para ser revelado).

Como diretor, Cao Guimarães revela um amadurecimento impressionante em "Espera" e o exibe em diversas cenas. O filme começa com uma simples exposição do cotidiano, com as imagens mais corriqueiras possíveis dele. Sim, o cotidiano está impregnado de espera, de um tempo aparentemente morto que esconde a magia da contemplação. Tal é a ousadia na qual Cao constrói a noção de contemplação, que podemos arriscar de dizer que ela se constitui um atributo político e estético determinante para um mais profundo entendimento.

Todavia, e felizmente, Cao nos brinda com muito mais. Nos presenteia com imagens e reflexões vindas de uma viagem de barco (como preciosamente diz, esperar no barco é diferente, pois estamos sem o contato direto com o chão e tudo fica mais fluido e incerto). E é nesse momento, que ele nos lembra que da janela do avião vemos tudo ovalado, enquanto no barco a janela se assemelha mais a do cinema.

Apesar de Cao pensar em tudo que vemos, ele jamais esquece do poder da subjetividade de cada espectador. Para ele a profundidade vem do olhar. Não à toa, no final ele lança uma pergunta: "nós espectadores esperamos pelo quê?" As respostas podem ser diversas, mas a minha eu revelo aqui desavergonhadamente: esperamos pelo espetáculo insondável da vida! Ou ao menos por um pequeno lampejo dele. E a espera de Gael talvez seja a prova mais viva disso. O tempo que nos é dado pela espera é justamente o que permite que nos aproximemos desse espetáculo. Mais político que isso impossível. Singelamente, a "Espera" de Cao nos resgata para vida.

Visto no Cine Brasília, no dia 17/09, durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
Cotação:5/5


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