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NA PRESENÇA DE UM PALHAÇO - Direção de Ingmar Bergman


Texto escrito por Marco Fialho para o catálogo da mostra "O Lobo à Espreita: uma homenagem ao centenário de Ingmar Bergman", em 2017.

NA PRESENÇA DE UM PALHAÇO (1997)

Eu não desejava a vitória, mas a luta.
August Strindberg

Quando Bergman lançou Fanny e Alexander, em 1982, ele anunciou que era seu filme de despedida, que estaria se aposentando do cinema. Mas isso de fato não ocorreu, pois ainda faria outros tantos filmes para cinema e televisão. Dez anos antes de morrer, em 1997, Bergman filmou Na Presença de um Palhaço, filme feito para a TV Sueca e exibido com sucesso no Festival de Cannes, na mostra ‘Un Certain Regard’. O filme é uma homenagem ao cinema, ao teatro e a música. Uma obra muito desconhecida, mas que transpira poesia e beleza. Uma pequena pérola do mestre Ingmar Bergman que vale a pena ser descoberta pelo público.  

Várias características e temas do cinema de Bergman estão presentes no filme, como as sequências de sonho, personagens angustiados, hospitais (em especial os psiquiátricos), a presença da morte, os fantasmas, a preocupação com o papel da arte no mundo, a influência da forma teatral no escopo da obra.

Na Presença de um Palhaço é um filme cheio de vida que narra um sonho obstinado em encenar os últimos dias do compositor Franz Schubert e o seu amor por uma bela e jovem prostituta, que pertence a um barão, cujo Schubert também é dependente financeiramente. Os seus idealizadores, os pacientes Carl Akerblom (Börje Ahlstedt), apaixonado pela obra de Schubert, e o professor de exegese Osvald Vogler (Erland Josephson), saem direto do hospital psiquiátrico para encenar o primeiro filme falado ao vivo, em 1925, em uma aventura inusitada desses dois “loucos”. No início do filme quando nos deparamos com um hospital, parece que vamos assistir a mais um drama tipicamente bergmaniano, pesado e difícil de deglutir, mas não, aos poucos a vivacidade prevalece e a loucura se encaminha para liberar a energia criativa dos personagens. Há um lado pitoresco na história, pois ela se passa um ano antes do primeiro filme sonoro do cinema mundial, O Cantor de Jazz, com o cantor Al Jolson. Por isso faz lembrar muito a época da invenção do cinematógrafo, onde simultaneamente vários inventores buscavam a descoberta desse aparelho, em especial Thomas Edison e os irmãos Lumière. Há uma visível analogia entre as duas histórias. Como se fossem revelações de histórias pitorescas, de tentativas “fracassadas” que foram esquecidas pelo tempo.

Com muito sacrifício eles conseguem fazer e exibir o filme com a narração ao vivo, tal como eles queriam e almejavam desde o início do projeto. Mas nem tudo sai exatamente como planejado. Na plateia, poucos aparecem para prestigiar, mas esses são, com certeza, valiosos e atentos espectadores. Devido à precariedade do espaço de apresentação, o sistema elétrico do cinema improvisado não aguenta a sobrecarga, um incêndio inesperado acontece e no meio da exibição eles ficam impossibilitados de finalizar o filme conforme previsto. Então vem a ideia de Osvaldo Vogler de continuar a história no formato teatro. O filme tem explicitamente essa ironia, pois sempre foi questionado se afinal Bergman era um homem do teatro ou do cinema. Parece que no final da carreira Bergman já tinha convicção de que toda essa questão era irrelevante e que o mais importante era o amor e a dedicação à arte, independente do formato escolhido para expressar sua visão estética e humana. Amor esse muito explícito no making off do filme (encontrado no DVD distribuído pela Versátil Vídeo). Bergman por trás dos bastidores, nos ensaios, e na preparação como um todo, vibra como um menino, o que se vê não é um artista velho e cansado que fica sentado numa cadeira apenas apontando o que todos deveriam fazer. Ao invés disso, vemos o diretor correndo no set, se ajoelhando, deitando no chão, como se fosse um diretor estreante, ávido por não errar e dando um duro danado para demonstrar à equipe e atores como queria que o plano e a cena fossem feitos.  

Quando no filme acaba o primeiro ato e todos mudam o cenário para poder começar o segundo ato, uma das espectadoras pede para ler um texto que ela julga oportuno de ser lido. Como estamos dentro do espetáculo, Bergman utiliza da voz de um espectador da peça para expressar uma ideia muito sua sobre a vida e que muito explica as motivações dele como artista:
                         “você se queixa de tanto gritar e do silêncio de Deus. Você diz que vive trancado e que tem medo de ser para sempre, mas ninguém lhe disse isso. Pense então no fato de que você é o seu próprio juiz e seu próprio carcereiro. Prisioneiro saia de sua prisão. Para sua grande surpresa, você verá que ninguém o impedirá. A realidade fora da prisão é assustadora, muito assustadora, decerto, mas muito menos do que a angústia que você sente lá fechado em seu quarto. Faça um primeiro passo para a liberdade. Não é difícil. O segundo passo será mais difícil, mas não se deixe reter por seus carcereiros e seu próprio orgulho.”  

Claro que no contexto do filme, essa fala também se agiganta, se potencializa. Não importa as amarras impostas, nós como seres humanos temos o maior dever conosco mesmos, e não podemos fugir disso, é a nossa responsabilidade maior perante a vida. Os protagonistas do filme são todos tidos como fracassados e loucos pela sociedade, estão fora da curva estabelecida pelo status quo, mas são apaixonados, determinados pelos seus valores e amam as artes como expressão sagrada da humanidade. Teimam e vivem por ela. Na peça fica evidente o quanto os poderosos submetem artistas, como Schubert, à humilhação e a degradação, controlando comercialmente a produção musical e massacrando suas vidas cotidianas. A igreja, por meio do organista questiona o compositor por ele fazer uma música muito alegre, o que ele retruca que a música era uma resposta às humilhações sofridas nos últimos tempos. A autonomia do artista é abalada e colocada em xeque pelos donos do poder.

Durante todo o filme há uma intenção em confundir realidade e ficção, e a peça-filme cumpre essa missão. A cenografia de Göran Wassberg reforça essa ideia, pois há uma preocupação constante de que tudo pareça um cenário de uma peça teatral, nota-se inclusive certo artificialismo na construção dessas imagens. Assim como em "O Sétimo Selo", Bergman também personifica a morte em "Na Presença de um Palhaço". Durante todo o filme ela está ali à espreita, rondando a alma perturbada de Carl Akerblom. Apesar da tragédia final, o filme é uma ode à arte, mas à moda Bergman, mesmo considerando os traços de um Bergman já amadurecido, ciente do papel simbólico e limitado da arte. 

Como autor ele se mostra consciente de que o artista não mudará o mundo, mas pode sim transformar indivíduos sensíveis à sua causa. A trajetória de Bergman no teatro está presente no filme, e de forma convicta e positiva. A prova maior disso está no final do espetáculo do grupo, quando um espectador se vira para Carl e diz que tudo estava lindo, mas a parte do teatro lhe agradou mais. Bergman nunca omitiu de ninguém que a sua projeção mundial foi conferida pelo cinema, mas ele sempre se considerou ser muito mais um homem do teatro do que do cinema. "Na Presença de um Palhaço" é mais um testemunho a favor dessa sua curiosa visão.

Cotação: 3 e meio/5

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