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ESPLENDOR - Direção de Naomi Kawase


Crítica de Marco Fialho


Para além da imagem, a luz

Em um mundo cada vez mais tomado pela brutalidade nas relações, Naomi Kawase ("O Segredo das Águas" e "O Sabor da Vida") vem demonstrando filme a filme que prefere ir na contramão, ao propor um cinema onde a delicadeza e a sutileza insistem como valores válidos para a humanidade. E "Esplendor" reafirma a caminhada artística da cineasta. 

Dos últimos trabalhos realizados, "Esplendor" talvez seja o que mais se aproxime da ideia de cinema de Kawase, já que aqui ele está como protagonista, ou no mínimo, temas e questionamentos que lhe são caros em outras obras transpassam os personagens do filme, como o da natureza do olhar e das imagens. Durante o transcorrer da obra, Naomi nos desafia a pensar sobre o que é o olhar, o que o define, como os sujeitos se constroem e se relacionam por meio dele. 

Mas outro viés também presente em "Esplendor" é o da construção de narrativas. Não casualmente os personagens envolvidos na trama são profissionais que lidam com acessibilidade nos filmes, mais precisamente com a audiodescrição. Misako (Ayame Misaki) é uma jovem sensível que faz os roteiros que serão ouvidos pelos deficientes visuais. Já Nakamori (Misatoshe Nagase) é um consultor de audiodescrição, que tem uma visão parcial do mundo que o rodeia, o que ele enxerga são apenas vultos. É nesse contexto que eles se conhecem, quando precisam realizar um trabalho juntos. O que se discute é o que deve ser "visualizado" pelos deficientes, quais palavras precisam ser ditas para que se construam imagens. Palavras aqui se transmutam em imagens e o olhar depende de como uma determinada cena é descrita.   

Talvez a mais incrível realização de Kawase em "Esplendor" seja a ampliação do conceito de imagem. Frases como "quando fecho os olhos consigo ver melhor" e "nada é mais bonito do que desaparece na nossa frente" são sintomáticas e basilares da proposta estética e filosófica de Kawase. A audiodescrição serve de approach para o desenvolvimento de uma teoria da imagem, porque o que ela faz é por em suspensão o próprio conceito que temos de imagem. Será que realmente estamos vendo o mundo? Ou melhor, será a visão um apanágio pré-determinado, algo dado e concreto? Para Kawase, a imagem é antes de tudo uma pergunta, não uma resposta. E nesse mundo onde cada vez mais se quer respostas prontas "Esplendor" pode ser um instrumento da dúvida, de perguntarmos sistematicamente o que realmente estamos vendo? Essa é a grande contribuição de Kawase ao mundo. 

Ela também nos mostra que as imagens são de ordem fenomenológicas. Como bem pensava Heidegger, "os fenômenos são acessíveis pelo modo humano de ser, modo este que abrange mais do que o aspecto cognitivo-intencional". De certo não vivemos para as imagens, elas surgem quando menos esperamos, provocadas muitas vezes por outras imagens. Kawase abusa desse encontro em "Esplendor", se utilizando da fotografia como faísca para a memória. O que restou do pai de Misako foram algumas fotos e pequenos objetos, que criam nela fragmentos de imagem. Apesar da cegueira, Nakamori insiste com sua máquina fotográfica, segundo ele "ela (a máquina) é o seu coração, mesmo que eu não possa mais usá-la". 

A fotografia do filme também carrega muitos significados para a concepção cinematográfica de Kawase. A presença da luz do sol modifica não só a imagem que vemos como também a relação entre os protagonistas, ela aflora os sentimentos e permite a aproximação deles, ela ainda é fonte de beleza. Kawase se utiliza do por-do-sol, aquele momento onde o sol está mais ameno e mais perto de nós, e isso é algo que ela busca sistematicamente em seus trabalhos como diretora, a de nos fazer íntimos dos personagens.
                         
Todavia pensar a imagem e fazer dela algo de crucial para a vida humana é a grande meta de Kawase como artista. Em "Esplendor" a câmera é majoritariamente na mão, trêmula, imprecisa mesmo, e muito próxima dos personagens. Kawase parece querer nos dizer que não é essa aproximação que nos faz ver melhor, muito pelo contrário, isso torna tudo mais confuso. Para ela, ver de perto não é ver melhor. Olhar é mais do que ver as imagens e interpretá-las. As imagens só fazem sentido quando relacionadas à vida. Por isso as fotos estáticas são imagens que muito dizem, por terem o poder de nos conectar com o tempo, de represá-lo em um instante e transformá-lo em único, perene. Conexão é algo que muito interessa a Kawase, cuja delicadeza no trato com os personagens parece infindável. 

Se a imagem para Kawase é ampla, isso fica evidente nas cenas onde se trabalha a audiodescrição. Enquanto Misako quer florear os roteiros de adjetivos, Nakamori a contesta por acreditar na imaginação dos espectadores. Mas essa é a ideia que a diretora quer construir, a de que o filme deve deixar momentos onde possamos nos conectar com ele pelo próprio cruzamento de sentimentos de quem o realiza com quem o assiste. Essa é a riqueza do cinema de Kawase, acreditar que um filme deva ser vivido, sentido, não apenas ser visto, o que justifica ela terminar com a seguinte sentença: "para além do olhar de Juzo existe a luz". O encantamento de Kawase continua irresistível.         
                           
Visto no Reserva Cultural de Niterói, em 05 de maio de 2018.

Cotação: 4/5

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