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LAMPARINA DA AURORA - Direção de Frederico Machado

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O fim do filho, o fim de tudo

Crítica de Marco Fialho

"Lamparina da Aurora" é um filme composto de apenas três personagens: um pai, uma mãe, ambos já idosos, e um filho. O clima do filme é de mistérios, nada nele está prontamente explicado, o espectador é chamado a juntar os diminutos elementos oferecidos pelo diretor Frederico Machado.
Inicialmente a narrativa se apresenta como cíclica, marcada pela repetição de um cotidiano simples e austero, de acordar, trabalhar e jantar. Há um clima opressor dado por essa rotina, já que nada quase acontece nesse contexto diário. Mas à noite, horário em que a lamparina precisa ser acessa é que eles recebem a visita, aparentemente já esperada, do seu único filho, que depois descobrimos que já morreu faz tempo. Então é a partir desse prólogo que o tempo no filme é organizado, ou melhor, desorganizado, pois pela madrugada os pesadelos tornam-se recorrentes e o passado vem conviver com o presente. Não somos informados sobre o que é sonho ou realidade no filme, e tal como em  "A Hora do Lobo", de Bergman, o tempo é chamado nesse horário de pouca luz, onde o inconsciente emerge abrupta e inesperadamente da forma mais angustiante possível. Lentamente, vamos tendo elementos para ligar alguns fios e esboçar uma trama para o filme. Não que isso seja a proposta de Frederico Machado, nos oferecer tudo de mão beijada, já que o mais instigante nessa obra é esse aspecto tão cinematográfico, o de optar por assumir que cinema é sonho, poesia, imaginação, e principalmente, ontologia.
Um dos aspectos mais interessantes no filme está em como o som, a fotografia, a direção de arte e atuação dos atores dialogam permanentemente na estrutura fílmica e narrativa. Isso faz com que "Lamparina da Aurora" seja uma obra altamente sensorial, característica essa também bem marcante nos filmes anteriores do diretor Frederico Machado.  Enquanto assistimos ao filme nunca sabemos em que terreno estamos pisando, já que o onírico se impõe pungentemente. Somos colocados na mesma perspectiva de transe dos personagens, suas fraturas e culpas passam a nos habitar durante a projeção e tudo parece ser muito fluido e incerto, pois somos arremessados em um turbilhão de incertezas.   
Mas é por meio do sensorial, isto é, na forma com que o diretor nos dispõe os elementos constitutivos do filme, que a sua obra nos atinge e nos ecoa seus sentidos. Ao se apropriar desse artifício, a atmosfera de "Lamparina da Aurora" muito se aproxima da concepção do realizador tailandês Apichatpong Weerasethakul, inclusive com a utilização de fantasmas na trama. Mas no decorrer do filme essa semelhança vai se esvaindo e se distanciando, pois o fantasmagórico aqui se manifesta não espiritualmente e como força da natureza, como nos filme do tailandês, mas sim como presença psicológica advinda dos próprios conflitos dos personagens.
A trilha sonora (aqui entendida não só pela música, mas também pela construção de ruídos) de "Lamparina da Aurora" chama muita atenção de como ela funciona como um dos elementos fundamentais para a narrativa do filme. O uso de sons fora da diegese ajudam muito no clima de mistério pretendido pelo diretor, assim como a antecipação da entrada sonora do plano seguinte já nos chama e convida para o que está para vir. Assim, a montagem sonora serve de guia para a própria montagem das imagens.             
Durante os poucos mais de setenta minutos há apenas um curtíssimo diálogo no filme, mas um diálogo importantíssimo, que ajuda a delimitar algumas situações cruciais, como o de trazer à tona o arquétipo edipiano clássico da eterna disputa amorosa entre pai e filho pelo amor da mãe. Mas a ausência dos diálogos no filme é resolvida criativamente com a inserção na narrativa de poemas de Nauro Machado (pai do diretor Frederico) lidos pelo próprio, que acentuam a carga simbólica na qual Frederico Machado almeja imprimir em sua obra. E são os poemas fortes e pungentes de Nauro que conseguem acrescentar uma camada expressiva e profunda, que mantém o mistério no qual o filme navega perenemente. Mas ao mesmo tempo, também são os poemas que ofertam pistas valiosas para uma melhor compreensão acerca do tênue fio de enredo que nos é dado pelo diretor. A inclusão do universo poético do pai de Frederico Machado na estrutura narrativa de um filme que aborda uma relação familiar é, no mínimo, curiosa e merece ser pelo menos aqui mencionada.
Mas dentre os poemas incorporados no filme gostaria de citar um, que ao meu ver, é o que melhor sintetiza o filme, e que enobrece o filme tanto poeticamente quanto existencialmente, e que ao meu ver, funciona como uma chave fundamental para melhor acessar à proposta estética do filme:
"Eu matei teu filho, pai! E se eu o matei no ventre agora do pó desfeito, liberta dele o espírito que sei me alimentando até no teu imundo leito. Eu matei teu filho, pai! Oh Deus, blasfemei, chama, acendei da estrela o fogo além do humano peito, o eterno fogo, do ser carnal que é feito de morte cheio, iguais até no vício, se estão comigo e em ti no precipício, da terra abaixo girando peão a esmo, girando abaixo em água e treva e chama. Eu matei teu filho, pai! O filho em eterna gama, e esse seu filho, pai, não é outro, sou eu mesmo!"
Esse poema representa bem a fábula existencial e cristã contida em "Lamparina da Aurora". A morte do filho não é a morte apenas do filho, mas a morte da própria família. O tema da família é recorrente no cinema de Frederico Machado, aparece em toda a sua obra, e isso não é por acaso. A família simboliza o começo da nossa organização social, e ao refletir sobre ela refletimos sobre a nossa existência e a nossa sociedade. O espaço da família no filme é bem delimitado, é o da fazenda, sua sede e a floresta que a cerca, ele é, para Frederico Machado, a representação do próprio mundo, inclusive, no ambiente da casa vê-se perfeitamente a tradição católica estampada nas paredes. Portanto, é impossível tentar compreender o mundo que nos cerca, sem esbarrar de alguma forma nessa tradição.   
Logo nas primeiras cenas vê-se fotografias velhas da família, todas elas desgastadas pelo tempo, tempo inclusive que se vislumbra como um importante personagem no filme. O lidar com o tempo torna-se o grande obstáculo dessa família, onde o passado insistentemente condena o futuro e transforma o presente em uma eterna angústia. Seus dias estão contados, com o suicídio do único filho, a família também se extinguirá.

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