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TORQUATO NETO - TODAS AS HORAS DO FIM - Direção de Eduardo Ades e Marcus Fernando





O poeta e o seu tempo


Crítica de Marco Fialho


Nesses tempos onde está reinando a caretice, o filme “Torquato Neto - Todas as Horas do Fim” nos traz um alívio e uma ponta de esperança. Isso porque esse documentário fala de um passado que apesar de nos ser próximo historicamente traz um contexto de significativa resistência à opressão por meio da arte, o que acaba por provocar uma reação e uma reflexão também às questões postas no nosso mundo de hoje.

Um dos aspectos a ser sublinhado no filme e que chama muito a atenção é o cuidado na pesquisa de imagens feita pelos realizadores. Todos os depoimentos são ouvidos em voz off enquanto somos metralhados por muitas imagens. São fotografias, vídeos em super 8, videoclipes, filmes do cinema novo e marginal dos anos de 1960 e 1970. Os áudios são igualmente interessantes e múltiplos, são diversos testemunhos colhidos hoje por artistas que conviveram com Torquato Neto em algum momento de sua vida. Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé, Augusto de Campos, Jards Macalé estão entre os entrevistados. O ator Jesuíta Barbosa interpreta as cartas e as poesias deixadas pelo próprio Torquato.

Os diretores se esforçam em mostrar o quanto Torquato Neto sempre tratou em sua vida em andar muito próximo da morte, e mais especificamente do suicídio. Essa escolha me parece bem acertada, pois ela marcou decisivamente a sua carreira de escritor, letrista, ator e cineasta. Essa certeza da morte prematura permeou e influenciou sua forma de pensar a arte e a vida. As internações em manicômios foram tentativas de frear esses impulsos suicidas, mas que só serviram para demonstrar o quanto eles eram ineficazes.

Jesuíta Barbosa consegue fazer uma leitura das cartas de forma muito sensível, as interpreta em um ponto tão certo que sequer pensamos que não é o próprio Torquato Neto quem as lê. Enquanto as suas cartas evocam o passado, e as questões que o angustiavam, as imagens entram como um importante elemento contextualizador dos turbulentos anos 1960-70. Os números musicais utilizados são os da própria época, nos envolvem e nos ajudam a embarcar na viagem temporal que o filme propõe. Os diretores aproveitam bem o fato de Torquato ter tido uma relação estreita com o cinema para introduzir trechos de várias obras que dialogaram de alguma forma com o seu trabalho e sua maneira de enxergar a vida. Os filmes do chamado “cinema marginal”, de Sganzerla, Bressane, Tonacci, Agrippino de Paula, Ivan Cardoso estão todos ali, alimentando a construção desse personagem complexo, profundamente crítico e inconformado com o mundo em que vivia, sem esquecer da sua instigante e profícua relação de amizade com Helio Oiticica.

Um dos grandes acertos deste filme reside em retirar da sombra um artista versátil e primoroso, mas é preciso ainda destacar a ousadia dos diretores em falar desse poeta sem esquecer da poesia cinematográfica. E a força desse documentário está justamente nesse mosaico poderoso que ele propõe, onde sons e imagens mesmo não sendo correspondentes, pois ambos nos chegam de fontes diversas, dialogam intensamente por conta de uma montagem minuciosa e criativa. Vale pagar para ver.   

Visto no Cine Odeon, em 07 de outubro, no Festival do Rio 2017

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