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NA PRAIA À NOITE SOZINHA - Direção de Hong Sang-Soo



A PRAIA, A ATRIZ, A MESA, O ÁLCOOL E O AMOR  


Texto de Marco Fialho

Em um filme de Hong Sang-soo tudo que nos é mostrado na tela parece trivial e banal, beirando mesmo ao casual. Só que não. Sua proposta estética é sempre muito trabalhada para que tudo apenas aparente ser de uma simplicidade que beira o sem-graça. Em “Na Praia à Noite Sozinha” ele pega pesado nesse aspecto. Todas as cenas praticamente são construídas a partir de conversas, quase todas em volta de uma mesa, seja em um bar, uma cafeteria ou na casa de algum personagem.

O filme se divide em duas partes, uma passada na Alemanha, outra numa praia da Coreia do Sul, distante de Seul. Sang-soo é mesmo chegado em estruturas narrativas divididas em partes e assim ele constrói seu estilo inconfundível. O tom empregado em seus filmes também se assemelha, o de rir da grande comédia que somos, de aceitarmos, apesar de adultos, o patético como inerente de nossas existências.


Outro traço marcante de sua filmografia e presente em “Na Praia…” é o da imprevisibilidade e a incerteza acerca do futuro. O futuro é sempre colocado como algo plenamente aberto, onde tudo pode acontecer, e ser modificado por um detalhe banal. Para Sang-soo nada é mais incerto que o amor. Os diálogos sempre esbarram nesse ponto, do questionamento do que é o amor, qual a sua qualidade e efetividade em nossas vidas. Um dos pontos interessantes desse novo trabalho dele é a da presença da praia no desfecho das duas partes do filme. Logo a praia esse ambiente da repetição, onde as ondas vêm e voltam interminavelmente, mas que contraditoriamente também é marcada pelo vento e pelo espaço amplo, tão inspiradores da liberdade e do devaneio.

Uma das especialidades de Sang-soo são as cenas sempre repletas de diálogos deliciosos e intrigantes, quase sempre filmados em planos-sequências muito bem estruturados, com uso de aproximações ditadas por invasivos movimentos em zoom. A protagonista é uma atriz em crise com sua carreira, sua beleza, seu inevitável envelhecimento e descrente do amor. O diretor brinca habilmente com o próprio ambiente do cinema como espaço de criação artística, onde o sonho da personagem encontra-se com a do público, numa metalinguagem que nos abala e nos tira da nossa zona de conforto, nos remetendo a uma fronteira que nos confronta com a própria noção do que é o real. E como é  interessante a forma com que Sang-soo utiliza o álcool como agente catalisador de conflitos, de delírios, extravasamentos e acirramento das emoções humanas.


Mesmo flexibilizando seu estilo, se tomarmos “Certo Agora, Errado Antes” como referência, mais uma vez Sang-soo surpreende com um filme delicioso, narrativamente fluido e agregando até pitadas surrealistas na trama, como a do homem obstinado em limpar a vidraça do apartamento, sem notar nem ser notado, como se fosse mais invisível do que o próprio vidro que limpa com tanto esmero. Apesar de invisível para os personagens ele não o é para nós espectadores que ficamos incomodados com a apatia dos personagens frente aquele desconhecido.   

Só nesse último ano Sang-soo realizou três filmes, uma proeza realmente incontestável. Ao trabalhar com o cotidiano, o diretor reafirma seu traço inconformista em relação a como estabelecemos nossos laços afetivos na contemporaneidade, o que faz dele um artista cultuado por muitos e seus trabalhos obrigatório para os cinéfilos do século 21.

Visto no Estação Net Rio 4, em 4/10/2017.

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