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ANISTIA 79 (2025) Anita Leandro


Texto por Marco Fialho

O documentário Anistia 79 remexe em memórias abissais da resistência política no período da ditadura militar brasileira (1964-85). A diretora Anita Leandro, que é professora de história na UFRJ, traz à tona um achado, um documento de 1979, da Conferência Internacional pela Anistia no Brasil, em Roma, mas o resgata em forma de um encontro tocante entre esse passado registrado pelas imagens realizadas por Hamilton Lopes dos Santos e Dirceu Greco Monteiro com o presente, com ativistas remanescentes do evento em 1979 revendo e reagindo a momentos tão cruciais para a democracia brasileira. 

Anistia 79 joga com esse choque temporal de quase 50 anos, de quem lutou por uma sociedade mais igualitária e viveu as incertezas de saber se estaria vivo ou morto no dia seguinte, que travou uma batalha na clandestinidade e viu parentes sendo presos, torturados e mortos pelo regime ditatorial vigente. É emocionante assistir aos personagens de antes interagindo com as imagens de suas lutas, reconhecendo a si mesmos bem mais jovens, além de outros colegas de luta nas imagens exibidas. 

A qualidade de Anistia 79 foi reconhecida na prestigiosa Mostra de Cinema de Tiradentes 2026, sendo agraciado com o melhor filme na Mostra Olhos Livres e pelo júri popular. As imagens de 1979 revelam não só encontros tensos e fraternos entre militantes da esquerda brasileira, que fazem um balanço da situação à época de se efetivar uma proposta de anistia para os presos políticos e exilados, mas descortina o próprio sentido da vida desses personagens. 

É surpreendente a qualidade das imagens de 1979, o quanto o preto e branco é tão límpido e exibe os rostos e reações dos personagens envolvidos. Entretanto, o mais interessante é observar a dubiedade das imagens, o quanto aquelas pessoas no vídeo impactam nos 11 personagens hoje ainda vivos, de poder vivenciar a reação deles aos discursos dos colegas ou à jovialidade de algum deles, a saudade de uma época em que a luta representava a vida desses personagens. Como é difícil para eles segurarem a emoção ao lembrar dos momentos duros, mas repleto de muita ternura dos que se punham a lutar por um país mais justo para todos.      

Anistia 79 se mostra um filme vigoroso, dinâmico, de certa forma nostálgico, e extremamente atual, basta lembrar o quanto ainda ouvimos hoje discursos vindos da extrema direita em defesa da volta da ditadura militar e de que naquela época o Brasil era melhor. Um dos pontos importantes desse documentário é o de mostrar alguns depoimentos que descrevem detalhadamente as sessões de tortura, do quanto cruel foram os algozes militares e o quanto ainda é decisivo para o hoje não permitir a volta do regime de exceção. 

Alguns nomes históricos da luta política brasileira aparecem na Conferência em Roma, como é o caso de Gregório Bezerra, Apolônio de Carvalho, Francisco Julião e Diógenes Arruda, militantes famosos na resistência à ditadura e que fazem discursos eloquentes em defesa da democracia e dos direitos dos trabalhadores rurais e dos operários do meio urbano. Anistia 79 registra muitas histórias desconhecidas, por meio de um arquivo descoberto pela pesquisadora Anita Leandro. Como é surpreendente a gente ver o quanto ainda lutamos por melhores condições de vida para os nossos povos originários, para as mulheres e negros, se constatar que a luta não acabou lá e agora está longe de encerrar. Os donos do poder ainda estão por aqui, e paira também hoje, a sombra da ameaça externa (leia-se Estados Unidos, com sua mais que centenária, e canhestra, Doutrina Monroe).  

Como é bom ver cada reação de quem insistiu viver para poder ver as imagens revitalizadoras de 1979 no mundo de hoje, e melhor ainda, como é maravilhoso poder mergulhar nesse túnel do tempo e reconhecer a importância da luta desses brasileiros para que pudéssemos viver um mundo de esperança, mesmo que paire ameaças a respeito da continuidade do nosso processo democrático. 

Anistia 79 é um documentário fantástico, que resgata arquivos e os fazem serem revividos por alguns que os protagonizaram, mas não são apenas os sobreviventes da conferência a reviverem algo, somos também nós, cada um que assiste e vibra com cada discussão que cheira à resistência política contra os velhos e eternos donos do poder do nosso país.              

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