Texto por Marco Fialho
Apesar da palavra racismo não ser pronunciada uma só vez em A Noite de Alaíde, documentário com toques ficcionais da diretora Liliane Mutti, ela ecoa a todo o instante no filme. Talvez essa fosse a intenção da produção, evidenciar sem precisar gritar o óbvio, de que a cantora Alaíde Costa foi preterida pela Bossa Nova pela cor da pele, inclusive no grupo que foi tocar no famoso show do Carnegie Hall, em 1962. Isso não quer dizer que o filme fuja do tema, ele apenas evita citar nomes e deixa à vista os fatos ocorridos.
A Noite de Alaíde ainda ronda nomes igualmente negros da nossa música que estiveram fortemente presente na carreira de Alaíde Costa, caso de Johnny Alf, Moacyr Santos, Baden Powell, sem contar com as gravações que fez com Milton Nascimento. O mais brilhante no filme é a construção que ele faz da diversa carreira de Alaíde Costa, de sua versatilidade como intérprete durante os discos gravados no decorrer dos anos. Ainda há entrevistas valiosas, em um material de arquivo bem pesquisado e que traz imagens bem pouco conhecidas. Inclusive, como é fantástico ver Alaíde Costa cantando em sua juventude, com todo o seu fulgor interpretativo.
A despeito dos inúmeros preconceitos, Alaíde Costa construiu uma carreira razoavelmente independente, quase sempre cantando e gravando o que queria, sem aceitar muitas imposições comerciais. Se por um lado, aceitou fazer algumas conceções, por outro, não aceitou tudo que veio em sua direção, navegando com personalidade em um mar difícil de atravessar, que é o da música brasileira e suas gravadoras elitistas e preconceituosas. Um dos grandes trunfos da carreira de Alaíde Costa foi ter privilegiado cantar compositores negros e ela própria, aconselhada por Johnny Alf, partir para o mundo da composição.
O filme mostra a aproximação de Alaíde com a turma da Bossa Nova, sempre com a própria narrando a história em voz off. Há uma afinidade musical entre a cantora e o movimento modernizador da canção, mas há igualmente uma dificuldade, e até um descaso, das gravadoras de absorver os artistas negros, mesmo sendo Alaíde uma cantora excepcional. Uma das sequências mais icônicas de A Noite de Alaíde ocorre quando a cantora narra a gravação de seu primeiro LP, em 1959, chamado Gosto de Você, e ela convida João Gilberto para ser o violonista desse trabalho e o mesmo é recusado pela gravadora. Evidente que João ainda não havia estourado mundo afora com seu Chega de Saudade e Alaíde conta essa história com imensa tristeza porque ter João Gilberto nesse momento seria impor a sua batida de violão no disco, o que teria impulsionado o disco sobremaneira, em especial porque anteciparia em gravação a batida genial de João.
Ao analisar a Bossa Nova como um todo, houve de certo um notório privilégio do movimento na valorização e divulgação dos intérpretes brancos, como João Gilberto, Tom Jobim, Nara Leão, Menescal, Carlos Lyra e Bôscoli e A Noite de Alaíde realiza uma síntese crítica interessante e oportuna em relação à historiografia oficial, que minimizou a participação de alguns integrantes do movimento. A Bossa Nova ficou marcada, com justiça, como um movimento oriundo das camadas médias da Zona Sul carioca, mas contou com a presença de outros artistas que como Alaíde Costa vinham de mais bairros afastados do universo praieiro, que moravam no subúrbio carioca e se esforçavam para encorpar o movimento elitista. Alaíde Costa, por exemplo, vinha do bairro da Água Santa e tomava 3 ônibus para encontrar a galera da Zona Sul.
Como dissemos lá no início do texto há elementos ficcionais no documentário. A mistura ficcional em A Noite de Alaíde não é simplesmente realizada por atores, há um retrabalho na imagem por meio da técnica da animação, que torna a narrativa mais lúdica. Nem sempre essa técnica funciona no filme, e a ausência física de Alaíde Costa gera um incômodo, afinal, o que mais queremos ver é a imagem dessa artista sofreu sumariamente um apagamento histórico. Vale lembrar, que Alaíde mesmo com mais de 90 anos, ainda está na ativa, fazendo shows e encantando com sua bela voz. Talvez a excessiva timidez da intérprete possa ter contribuído para que a diretora Liliane Mutti optasse por não mostrar a imagem no depoimento da artista, mas mesmo assim, como faz falta vermos mais de sua imagem em vídeo.
Contudo, A Noite de Alaíde é uma obra deliciosa de se ver, e principalmente de se ouvir. Alaíde Costa é mais um desses talentos que estão por aí quase incógnitos em nossas vidas. Por isso, esse filme traz à baila a magnitude da voz e o carisma discreto de uma diva brasileira. Recentemente, o Carnegie Hall recebeu Alaíde Costa para um show, como uma reparação histórica do célebre apresentação de 1962 que levou a Bossa Nova para o mundo. Pode parecer pouco, mas esse registro é fundamental, e se torna mais intrépido ainda por permitir que o povo brasileiro tenha acesso ao reconhecimento artístico de Alaíde Costa em vida, em seus plenos e lúcidos 90 anos.

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