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AS CORRENTES (2025) Dir. Milagros Mumenthaler


Texto por Marco Fialho

As Correntes, filme dirigido pela cineasta argentina Milagros Mumethaler, é uma pérola escondida em meio a um circuito que canibaliza talentos em troca de um faturamento marqueteiro. Algumas obras são propositadamente superdimensionadas e empurradas pelas nossas goelas pela força destrutiva do dinheiro, que no cinema está longe de erguer coisas belas para encher o mercado com um bando de xaropadas desclassificáveis. 

Em As Correntes, a diretora Milagros nos brinda com uma obra refinada e inteligente ao instigar o espectador durante toda a projeção. Na tela vemos Lina, uma estilista de moda que está recebendo um prêmio pelo seu trabalho, mas logo as primeiras imagens somos convidados a acompanhar uma mulher em crise. Na primeira imagem de Lina, ela aparece refletida em um vidro, enquanto vemos vultos de pessoas passando e a paisagem de uma cidade da Suíça. Tudo ali não se vislumbra nítido, como se a falta de clareza já dissesse algo sobre o que assistiremos a seguir. Lina pega um troféu em meio a aplausos, mas logo se dirige ao banheiro e depois de lavar as mãos, arremessa sua bela premiação no lixo. Esse é apenas o primeiro choque que temos, outros mais graves aparecerão no caminho.  

Contudo, Milagros Mumethaler não se contenta em apenas sinalizar o momento de crise da personagem, ela vai construir uma intrigante e envolvente narrativa em torno dos transtornos psíquicos de Lina, interpretada com extrema sensibilidade e entrega pela atriz Isabel Aimé Gonzalez Sola. A maneira como ela edifica sua personagem é um dos maiores trunfos de As Correntes por não explicitar todas as motivações das ações de Lina, uma mulher ainda jovem que aparentemente tem tudo o que faria qualquer pessoa feliz, um casamento, uma filha linda, um trabalho repleto de realizações e uma situação financeira confortável. 

O que acontece para que o corpo de Lina se desconecte do mental e passe a agir por vontade própria, negando com ações situações sociais corriqueiras. Um exemplo ocorre quando ao passar por uma ponte Lina se atira no rio caudaloso sem pestanejar, como um apelo do corpo. Esse ato trará uma consequência psicológica evidente, de Lina passar a ter uma aversão a qualquer tipo de manifestação líquida, como não tomar mais banho ou lavar os cabelos. 

As Correntes poderia ser um filme banal, caso fosse um produto hollywoodiano, mas felizmente não é. A direção de Milagros é tão certeira que investe na dúvida e na incerteza na construção da narrativa. Primeiro por não buscar muitas explicações tolas, apelativas ou excessivamente racionais. O filme vai fundo em Lina e embarca na sua crise sem julgamentos e a economia nos diálogos e o aprofundamento dos silêncios expressivos são fundamentais para nos manter interessados em estar junto a essa enigmática mulher. A narrativa de Milagros é sedutora ao trabalhar com as emoções verdadeiras de Lina, sua entrega à vida sem filtros. 

Algo que chama a atenção em As Correntes é uma aproximação formal, uma paquera narrativa que a diretora demonstra (não sei se instintiva ou intencional) com Vertigo (1958), obra máxima de Alfred Hitchcock, em que também ficamos tateando acerca da crise dos personagens. Lá o fim era a ilusão, aqui o fim é puramente existencial. Em Hitchcock a ideia de ilusionismo aludia ao cinema, já em Milagros é a crise de identidade que está no centro da abordagem. Mas as semelhanças especialmente narrativas entre os dois filmes saltam aos olhos. As cenas longas sem diálogos acompanhadas por uma música orquestral, inclusive tem uma sequência no museu que lembra Vertigo, com a câmera funcionando como voyeur e que descreve um ponto de vista de um corpo que plaina independente da suprema consciência. Outra sequência sensacional e bela é a que mostra em uma visão aérea a vida depois do trabalho de vários dos personagens enquanto Lina se embriaga pela luz de um farol, e Milagros filma tudo isso de uma maneira que beira o onírico.   

Algumas reflexões que o filme traz são muito instigantes, como por em suspenso a produtividade capitalista do mundo contemporâneo. Lina é uma mulher que precisa lidar com o trabalho, o casamento e a maternidade de uma forma exemplar, não há margem para imperfeições em uma rotina sintetizada pela tripla jornada de trabalho. Milagros põe uma interrogação em um mundo onde a falha não pode existir e encampa uma visão eivada pela sororidade. No decorrer de As Correntes ficamos a nos perguntar: quem é essa mulher? E o melhor é que um dos pontos focais de Milagros não é responder a essa pergunta, mas deixar para que cada um tenha a sua própria resposta a partir da personalidade labiríntica e misteriosa de Lina.

  


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