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ZAFARI (2025) Dir. Mariana Rondón


Texto por Marco Fialho

Desde as imagens iniciais, Zafari sugere algo distópico: um condomínio de luxo que estranhamente tem ao lado um zoológico. É nesse ambiente que a diretora Mariana Rondón (do ótimo Pelo Malo) fixa sua câmera para narrar uma história tipicamente da América do Sul, onde miséria, ecos de riqueza e ambiente selvagem se misturam para uma anunciada desintegração. 

No centro de Zafari está Ana (Daniela Ramirez), que vive com o arrogante e imóvel marido Edgar (Francisco Denis) e o distante filho adolescente Bruno (Varek La Rosa). Zafari é um hipopótamo, que chega para ser a grande atração do zoológico e que será cuidado pelo casal Natalia (Samantha Castillo) e Ali (Alí Rondón), moradores do prédio vizinho onde mora Ana, um imóvel bem mais simples do que o dela.       

A diretora Mariana Rondón, que também assina como uma das roteiristas de Zafari, junto com Marité Ugas, não precisa em qual país se passa o filme, mas sabe-se que uma grande crise se abate, embora sugira ser a própria Venezuela, com motoqueiros tocando o terror pelo país afora. O certo é que há cortes de energia e água, e uma falta generalizada de abastecimento pelo país. Contraditoriamente, apenas Zafari tem comida à vontade em meio a uma bagunça, onde moradores do condomínio de luxo começam a abandonar o país. 

Zafari, esse exuberante animal, pode ser lido simbolicamente como um imenso peso a representar o privilégio de um único ser a ter garantido o direito comer, em meio a um desabastecimento reinante. Zafari também representa o imobilismo social, uma dificuldade de se movimentar perante ao caos vivido e anunciado. 

Rondón joga com elementos de filme de terror e suspense para construir esse universo tomado por um sentimento de distopia profundo. Ana é da associação dos proprietários e usa desse poder para abrir os apartamentos vazios e roubar comidas e pertences alheios. Em paralelo, os moradores do prédio vizinho conseguem uma autorização do governo para usar a piscina do condomínio de luxo onde mora Ana. São movimentos que lentamente vai aproximando mundos que estão cotidianamente díspares, embora essa aproximação traga junto um certo esquematismo entre os que são mais ricos e os que são mais pobres.  

A fricção social está fortemente presente em Zafari, com discussões acerca de privilégios para poucos enquanto a maioria vive na penúria. O filme traz à tona um dilema interessante ao levantar a questão da fragilidade do poder e como existe uma linha tênue entre ter privilégios e perdê-los. Por isso, Zafari se torna um elemento simbólico no debate sobre as disparidades sociais criadas em diversas esferas de poder. Quais os limites que sustentam o mundo civilizatório? Essa é uma pergunta que o filme nos deixa. Nem Zafari, o hipopótamo privilegiado, se dá tão bem assim, já que seus tutores humanos acabam não só usufruindo de suas benesses, como também fazem dele mais um a endossar as fileiras da miséria reinante.

Zafari mostra que o limite entre a vida civilizada e a selvagem não é tão segura e estável quanto parece. O privilégio não é algo inato, ele é social, econômico, e sobretudo conjuntural. A diretora Mariana Rondón realiza uma obra sinistra sobre o tema, flertando com a atmosfera dos filmes de terror (atenção para o uso sutil da estética gore) e colocando em xeque nossos valores de maneira crua, sem dó, trabalhando sentimentos que regem os desejos, os medos e intolerância social. Ainda que a narrativa avance um pouco fluida, às vezes imprecisa, até claudicante em alguns momentos e da pouca contundência na metáfora política, há uma força irrefreável que vem do âmago de nossas vicissitudes históricas que valida a obra.     

Comentários

  1. Parece um filme interessante. Onde está sendo exibido?

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    Respostas
    1. No momento, só em São Paulo, no Espaço Petrobrás de Cinema.

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